1 de junho de 2014

Carta ao Jornal Globonews e Leilane Neubarth

Ao Jornal Globonews
A/C Leilane Neubarth, jornalista e apresentadora

Nós, da Parto do Princípio – Mulheres em Rede pela Maternidade Ativa, agradecemos à pertinente entrevista transmitida pelo Jornal Globonews sobre os altíssimos índices de cesáreas no Brasil e nosso “glorioso” título de campeões mundiais deste tipo de cirurgia.
Gostaríamos de agradecer, particularmente, à Leilane Neubarth em sua atuação bastante informada sobre a atual situação das mulheres brasileiras. Suas colocações e questionamentos foram pontuais e permitiram que algumas reflexões fossem feitas:

- Quem são os reais responsáveis pelos altos índices de cesáreas no Brasil?
Sempre que justificam que trata-se de uma questão cultural e pleiteiam o direito de escolha e autonomia da mulher, esquecem de assumir responsabilidade enquanto profissionais da saúde que, também, é  de informar adequadamente suas pacientes. Sabemos que são os profissionais médicos obstetras, muitas vezes, que induzem, por diversas formas, a mulher a fazer essa escolha sem nenhuma informação baseada em evidências científicas. Essa é a notícia que foi mapeada pelo estudo de grande porte da Fundação Oswaldo Cruz, chamado “Nascendo no Brasil” que deu origem à entrevista.
Em se tratando de escolha e autonomia, temos plena segurança em lembrar que as mulheres no Brasil, em sua grande maioria, não possuem chances de escolha informada. No serviço de saúde suplementar são levadas a crer que a cesárea é necessária quando, de fato muitas vezes a indicação é duvidosa, ou mesmo que a cesárea é um procedimento indolor e tão seguro quanto o parto natural. Em contrapartida, no serviço público de saúde, ela é obrigada a passar por um parto onde sofre maus tratos e violências obstétricas devido as diversas práticas desumanizadas.

- Em qual das duas situações ela é incentivada e pode exercer sua autonomia, Dr. Raphael Câmara?
Sabemos que o atendimento e assistência ao parto desumano que são apresentados na rede pública é uma grande propaganda para induzir a mulher a uma cesárea agendada. A mulher não escolhe a cesárea por que ela “tem medo da dor”, Dr. Raphael Câmara. Escolher pressupõe ter opções. E quando uma mulher decide por uma cesárea, ela está, na verdade, fugindo das práticas rotineiras desumanas, humilhantes, ultrapassadas e violentas da assistência ao parto normal no Brasil.

Consideramos mais que necessário atualizar o Dr. Raphael Câmara com estudos recentes, realizados com um grande número de mulheres e que foram publicados em revistas internacionalmente conhecidas sobre os o riscos comprovadamente aumentados da cesárea e outras inverdades afirmadas durante o programa.
Copiamos aqui a lista da Profa Dr Carla Pollido da UFSCAR, ginecologista obstetra, que levantou alguns estudos que podem comprovar que as afirmações dada pelo seu colega são infundadas e parte da mitologia do parto no meio obstétrico:

1)    Em 8.026.415 mulheres submetidas a um parto vaginal ou a uma cesariana, a taxa de mortalidade perinatal na cesárea foi 2,4 vezes maior que no parto vaginal.
"Neonatal Mortality for Primary Cesarean and Vaginal Births to Low-RiskWomen: Application of an ‘‘Intention-to-Treat’’ Model. MacDorman et al., BIRTH, 2008."

2)    Coorte prospectiva (WHO Global Survey) com 97.095 nascimentos. Na cesariana ocorreram:  
4 a 5 vezes maior a chance de antibioticoterapia
2,3 vezes maior a chance de morbidade materna na cesariana eletiva
3 a 5 vezes maior taxa de mortalidade materna
4 vezes maior a chance de histerectomia
2 vezes maior a chance de internação na UTI ou internação > 7 dias
"Maternal and neonatal individual risks and benefits associated with caesarean delivery: multicentre prospective study, Villar et al., BMJ, 2007."

3)    Estudo em 24 países, com 373 instituições de saúde e 290.610 nascimentos: mulheres submetidas a cesarianas apresentaram 5,93 mais chances de morbidade grave.
"Caesarean section without medical indications is associated with an increased risk of adverse shortterm maternal outcomes: the 2004-2008 WHO Global Survey on Maternal and Perinatal Health. Souza et al., BMC, 2010."

4)    O aumento na taxa de cesariana > 10% não teve impacto sobre as taxas de mortalidade materna, neonatal e infantil. Uma taxa de cesariana de nível população acima de 10-15% não é justificada do ponto de vista médico.
"Searching for the Optimal Rate of Medically Necessary Cesarean Delivery. Ye J1, Betrán AP, Vela MG, Souza JP, Zhang J., BIRTH Abril 2014."

5)    Brasileiras PREFEREM cesariana? A grande diferença nas taxas de cesarianas no Brasil é devida a um grande número de cesarianas indesejadas na saúde suplementar.
“Potter et al., BJOG, dez 2001.”
Médicos da saúde privada no Brasil com frequência convencem suas pacientes a agendar cesarianas por motivos inexistentes ou irreais.
“Potter et al., BIRTH, dez 2008.”

Nós, mulheres, buscamos fazer com que esta transformação aconteça por meio da mudança do modelo da assistência ao parto atualmente médico-centrada. Em todos os países que apresentam baixa taxa de cesárea e de mortalidade materna (morte de mulheres no período gestacional ou até 42 dias após o parto) e neo-natal (morte de bebês até 28 dias), e altas taxas de satisfação com a experiência de parto, as práticas em obstetrícia foram apoiadas por um modelo em que outros profissionais da área de saúde ficam à frente do atendimento às mulheres de gestação de baixo risco, sejam obstetrizes ou enfermeiras obstetras.
Nós, mulheres em rede, atuamos de forma organizada para que as mudanças neste cenário aconteçam e esperamos que, com todos os estudos, pesquisas e evidências científicas já existentes e disponíveis, as associações médicas ligadas à ginecologia e obstetrícia, atualizem seus profissionais urgentemente para que o país recupere o caminho da assistência ao parto humanizado e eficiente.

Flavia Penido
012/991249820
representante da rede Parto do Principio
Janaina Lacerda
membro regional da rede Parto do Princípio
Rede Parto do Princípio



4 comentários:

Ilíada disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ilíada disse...

Muito bom e esclarecedor esse post!
Estão de parabéns - dados atuais, baseados em evidências e acrescidos de uma boa dose da realidade ouvida pelos profissionais que acompanham partos respeitosos. Difícil falar em escolha pela cesarea no Brasil.

Raphael Camara disse...

Estou bem atualizado. Reiterou que não há evidências que o parto vaginal seja melhor que a cesariana em fetos a termo.

Raphael Camara disse...

Reitero*