E eis que o Dia da
árvore chegou. Amanheceu 21 de setembro (de 2011) e minha comunhão com o bebê
era tanta que eu já pressentia que algo estava por vir.
Acordei e quando
fui ao banheiro, o anúncio: sangue. A visão me trouxe euforia, como se uma
grande festa estava começando. Contei pro meu marido que havia chegado a hora.
Era tempo dele se preparar. Fomos, os dois, em um dos médicos que me
acompanhava no pré-natal e, no exame, eu já estava com 3-4 cm de dilatação.
Pronto, era este dia! O grande dia!
Eu oscilei entre
chamar assistência (que viria de Porto Velho-RO, capital, há 470 km), ou ficar
somente eu e meu marido. Hoje eu vejo que apenas não queria admitir para mim
mesma, para a minha parcela racional e masculina, que queria mesmo era parir
sozinha. Meu marido me ajudou a dar um decisivo passo me dizendo: “Ou vai ser
só nos dois ou
iremos pro hospital”. No fundo, eu sabia o que isso queria dizer: seria só nos dois, pois hospital nunca foi uma opção para mim. Há meses, quando me vi grávida, eu sabia exatamente onde e como o bebê, aquele ser de luz que estava nos escolhendo, queria nascer.
iremos pro hospital”. No fundo, eu sabia o que isso queria dizer: seria só nos dois, pois hospital nunca foi uma opção para mim. Há meses, quando me vi grávida, eu sabia exatamente onde e como o bebê, aquele ser de luz que estava nos escolhendo, queria nascer.
Precisei fugir para
a mata para me permitir. Sim, peguei meu carro, no fim da tarde, e fui para um
hotel de selva. Fiz toda uma trilha ecológica, sozinha, chorando, pensando,
meditando... acompanhei o pôr do sol, repetindo para mim: “Quero porque é
certo!”. Lembrei do livro “Ciranda das Mulheres Sábias" que resolvi ler
faltando dias para o parto. Conversei com a Mãe Terra, me senti canal, virei
mulher, virei sábia e quando cheguei em casa, à notinha, abracei meu amor, nos
emocionamos juntos com tudo que estava por vir.
Os filhos maiores
entraram na energia e também integraram a emoção. Éramos mesmo, agora, somente
eu, ele e nosso filho por nascer.
Às 22h54, minha
mensagem para a Thayssa, minha doula à distância: “Tô indo tentar dormir, me
deu um sono louco, tá de 10 em 10 min., perdi o tampão”. Às 02h00 alguma coisa
me acorda e, pronto, chegou minha hora, a nossa hora. O Uillian me vê e
pergunta se eu quero algo. Ele liga música, busca algo para eu beber e, pronto,
a jornada do nascimento estava tendo início.
Despedi-me do dia
21, passei a madrugada em trabalho de parto. Acredito que a natureza foi muito
benevolente comigo, pois em momento algum tive contrações muito próximas ou
muito dolorosas. Aliás, lembro de volta e meia pensar: "Cadê a dor? Cadê o
ritmo?". Cheguei a achar que sequer estava em trabalho de parto
verdadeiro, já que foi tudo muito suave, muito misterioso mesmo.
Eu dormia profundamente
entre as contrações e, num dado momento fiquei sentada na bola e encostei minha
cabeça na cama, foi uma delícia e acho que ajudou o bebê a ir se encaixando.
Meu marido cochilava junto comigo, quando dava. Eu sabia que devia me
movimentar, ficar na vertical... lembrava de tudo que eu havia gravado fundo na
minha mente. Era como se agora eu agisse automaticamente, como resultado de
tudo que eu tinha aprendido e apreendido. Era muito reconfortante, me sentia
segura, em terreno conhecido.
Fui ao banheiro
diversas vezes. Caminhava pelo meu quarto, pelo meu território, com o meu
cheiro.
Olhava aquele
cenário que durante meses eu gravei, visualizei e sonhei. Não havia outro lugar
no mundo onde eu deveria estar, que não ali. Não havia outras pessoas a me acompanhar
que não o meu homem, o meu eleito. Estava tudo perfeito! Via aquela mulher, no
espelho, nua e olhava aquela barriga linda e dizia: Adeus...
Depois da cada
contração, o bebê se movimentava e isso me deixava ainda mais solta e relaxada.
Uma comunicação mesmo, uma conexão. Estávamos juntos naquela viagem de partida
e de chegada. “Deus meu, como eu sonhei com este dia...”
Quando fiquei me
sentindo confusa e cansada e, principalmente, ainda achando que as coisas não
estavam engrenando, olhei pra janela do banheiro, vi que estava amanhecendo.
Pedi pro meu marido a banqueta de cócoras que eu havia mandado fazer e fui pro
chuveiro quente. Não tenho a menor noção do tempo que fiquei lá, completamente
em transe. Meu marido aproveitou para dormir. Eu acredito que nesta hora eu
estava bem na fase de transição, chegando aos 10 cm, mas era tudo muito suave,
muito místico para mim.
Resolvi me tocar,
mesmo sem ter noção alguma disto. Esperava sentir a cabeça do bebê, mas
acredito que eu senti a bolsa, pois era algo fofo; no entanto, pelo espaçamento
entre meus dedos no colo, imaginei que há havia dilatado tudo, sei lá...
Saí do chuveiro e
deitei-me na cama com aquela sensação maravilhosa de calor do banho e apaguei.
Lembro-me de dizer para o bebê que eu precisava de uma trégua, um descanso. E,
sim, ele me respondia! Que milagre! E então, parou tudo, veio uma calmaria,
feito bálsamo. Não sentia mais contrações nem desconforto e dormi
profundamente. O bebê mexia o tempo todo. Sentia seus pés nas minhas costelas e
sua cabeça pressionando meu baixo ventre. Acordei e disse pro meu marido que eu
precisava ir ao banheiro. Era o período expulsivo começando...
Liguei pra Thayssa
e disse que não sabia se era hora certa. Nem lembro direito do que conversamos,
mas uma mensagem que ela mandou em seguida me deu uma estranha certeza, eram
08h38 da manhã: “Tenta relaxar e ouvir o que o corpo manda fazer. Observa, se
ele mandar empurrar pode empurrar”. Acredito que eu estava com medo do incrível
poder do meu corpo, do tsunami que estava por vir. Lembrei que li no livro do
Deepak Chopra que “quando a mente serena, o corpo assume o comando”. Era o que
faltava: me entregar às ondas gigantes e nadar, confiante, de braçadas.
Meu marido estava
sentado na minha frente, me olhou firme e disse: "Se é a hora, então
vamos, me dá sua mão". E eu dei. Confiei naquele homem que havia me dito
que seria a única pessoa que não iria me decepcionar. Sim, ele foi comigo rumo
ao desconhecido. Ele manchou as mãos com o sangue do meu corpo e viveu comigo o
evento mais feminino do universo. Ele foi meu esteio naquilo que sequer conhecia.
Ele acreditou em mim, acreditou no invisível, acreditou no que estava
completamente fora dele. É chegada a hora de cumprir o votos...
Fiquei de joelhos,
exatamente onde visualizei o parto, dia após dias, durante meses. Abracei meu
amor e lembro-me de, entre os puxos, dormir de lado, profundamente. Quando eles
voltavam, o meu marido me aparava e nos abraçávamos novamente. Num instante ele
sussurra no meu ouvido: “Você está sentindo o bebê nascendo?”. E eu disse:
“Sim, põe sua mão, amor”. E ele sentiu o bebê coroando. Eu senti o círculo de
fogo e apenas respirei completamente dominada pelas poderosíssimas forças
ocultas da vida. Eu sabia, o Divino estava ali. Fechei os olhos e vi uma imagem
que há dias atrás havia visto num site. Era gravura de uma mãe e seu filho, no
momento da separação física, emocional e espiritual. Fiquei com esta imagem, me
apeguei a ela.
Com um puxo a bolsa
estourou e com mais uns três ele chegou! Tinha uma circular de cordão que meu
marido tirou com a autoridade de quem fez isso a vida toda. Passou-me o bebê,
com um olhar de orgulho que nunca vou esquecer. Eu limpei seu rostinho e
imediatamente o colei no meu peito. Não ouvimos gritos ou choros. Ele tossiu e
fez um choramingo, só. Nos beijamos, beijamos o nosso filho e o sagrado nos
selou. Sentimos a imortalidade, havíamos sentido, intensamente, toda a jornada
da vida.
O bebê, de olhos
fechados e com aquele cheirinho de bala, respirando bem rapidinho era a própria
visão do Eterno. Foi mudando de cor, lentamente, nos meus braços, enquanto o
cordão umbilical ainda pulsava, preso a mim e à placenta. Aqui estava ele.
Nascido na mesma aura de intimidade com que foi, um dia, atraído para esta
família. Veio do amor e pelo amor, ancorar neste lar, mergulhado em uma paz
profunda. A criança encantada. O bem nascido.
Não tive laceração,
ele nasceu com 3.555 kg e 51 cm às 09h00 da manhã de um dia lindo!
Meia hora depois do
nascimento ligamos para uma GO que me acompanhava no pré-natal. Ela chegou,
muito carinhosa acompanhou a dequitação da placenta (que agora está plantada no
jardim). Meu marido acordou nossos outros filhos que acompanharam tudo,
inclusive o corte do cordão umbilical. Não conseguimos filmar, não deu tempo ou
não era para ser. Aquele chorinho mágico... aquela cena surreal... tudo ficará
ressoando para sempre na nossa memória, só na nossa, como um pacto sagrado.
Gravada, profundamente, nas nossas células. Sem replay.
Fiz viagens físicas
e viagens emocionais. Sorri e chorei. Construí e destruí diversos castelos.
Travei batalhas internas para admitir que queria o que era certo. Hoje, sei que
defendi, acirradamente, os interesses do meu filho. E que perambulei pelo mundo
dual em que estou inserida lutando para ter respeito e dignidade no momento
mais importante da minha vida.
Eu não faço
apologia ao parto desassistido. Não quero e nem nunca quis que isso se
transforme em uma bandeira. Lutei para conseguir atendimento. De qualquer
forma, a maneira como as coisas aconteceram foi perfeita para a minha estória.
Continuarei lutando por assistência onde me sinto mais segura e para garantir
isso às mulheres que sentem igual a mim. Não quero que chamem isso de coragem.
Não, não se trata de coragem. Estamos falando de fé!
Cassiano nasceu em
paz, e eu e meu marido renascemos.
Cariny Baleeiro Tadiotto Cielo, graduada em Direito, servidora pública, praticantes de ioga, mãe e
integrantes da Parto do Princípio.
1 comentários:
Nossa... que lindo!!! Que vivência profunda e plena! Belíssimo relato... Parabens. Christiane
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