2 de abril de 2012

Relato de parto de Adriana Malteze - Nascimento da Julia



Julia,
Esse é o relato do seu nascimento; um momento tão especial da minha vida que resolvi compartilhar com você e espero que um dia você leia e sinta essa mesma alegria, essa mesma emoção que senti.
Vou começar contando um pouquinho como foi o nascimento do seu irmão Gabriel.
Eu e seu pai nos casamos no final de 2002 e já pensávamos em ter filho. Em julho de 2003 eu engravidei. Foi uma gravidez cheia de preocupações, medos e neuroses, que acabaram se refletindo no parto, embora eu tivesse me preparado tanto para aquele momento. Acho que a falta de confiança em mim acabou por tornar as coisas difíceis e o parto dele acabou sendo um pouco complicado. O meu tão sonhado parto natural humanizado acabou num fórceps de alivio com episiotomia, devido a uma anestesia mal dada. Ele nasceu “molinho e roxinho”, embora grande (3,730kg e 52 cm); recebeu Apgar (nota da vitalidade do bebê) 2 e 7; teve que passar uns dias na UTI neonatal, mas graças a Deus, não teve nenhuma conseqüência grave e hoje ele é um meninão super-saudável.
Quando ele estava com 1 ano, engravidei de você. Embora não planejássemos para aquele momento, foi uma grande alegria para nós, principalmente quando descobrimos que seria uma menininha. Nossa!! Como seria ser mãe de menina??? Nunca me vi colocando lacinho, roupa rosa e vestidinho num bebê. Seria uma experiência nova para nós e um grande desafio.
Não vou dizer que não tive medos ou neuroses durante a gravidez. Tive sim, mas foram poucas, principalmente no começo, quando ainda não podia sentir seus movimentos. Aliás, como é bom sentir os movimentos de um bebê no ventre; acho que é a sensação mais maravilhosa que, só nós mulheres, experimentamos.
Passados os 3 primeiros meses, fiquei bastante disposta e curti cada momento de sua estada em meu corpo. Não me preparei fisicamente para o parto, tão como na gravidez do seu irmão, na qual eu fazia ioga e hidroginástica todos os dias. Fiz apenas natação (1 vez por semana e hidroginástica 2 vezes). Mas, teoricamente, estava mais informada e sabia muito mais sobre o assunto. Acho que isso me deixou mais segura para tomar decisões, como a mudança de médico com 36 semanas.
Eu sabia que estava tudo bem com você e que minha gravidez estava perfeita e maravilhosa, mas o médico que fazia meu pré-natal insistia em pedir exames que não tinham a menor necessidade; além disso, cada vez que ia a alguma consulta com ele, me sentia frustrada e não tinha a segurança que desejava sentir. Um dia, depois de 2 horas e meia na sala de espera e 15 minutos na sala com ele, percebi que não era por aí que as coisas deveriam caminhar, que a humanização não deveria ser só no parto e sim em cada consulta.
Comecei a pensar em tudo o que aconteceu durante o parto de seu irmão e resolvi conhecer o Dr. Jorge Kuhn. Foi difícil convencer seu pai a mudar, afinal faltava tão pouco pra você nascer, mas foi a melhor coisa que fiz. Adorei o Dr. Jorge, o jeito como ele me recebeu, me explicando tudo de forma clara, dando o poder de escolher e decidir sobre tudo, me fazendo sentir uma confiança enorme de que tudo seria como planejava e sonhava.
Agora era só aguardar o momento tão esperado de sua chegada. E como foi esperado! Nesse finalzinho tive um pouco de ansiedade, pois queria que você nascesse antes do Natal. Sei que é bobagem, mas pensei em suas futuras festas de aniversário rssss.
Quando estava com 37 semanas comecei a sentir contrações, as famosas Braxton; tinha dias que sentia durante todo o dia, às vezes sentia a noite toda e sempre achava que, a qualquer momento, iriam engrenar. Ficava imaginando meu colo se dilatando e dizia em pensamento “vem Julia, vem filha, vem pro meu colo”, mas nada... Resolvi desencanar e pensei “que ela venha no momento certo”.
Com 38 semanas caiu o tampão, aliás, ele foi saindo aos poucos por alguns dias.
Quando estava com 39 semanas e 2 dias (17/12/2005 – sábado), o Gabriel tinha ido passar o dia na casa da sua vovó Diva, pois precisávamos comprar os presentes de Natal dele. Depois das compras, estava com muita vontade de comer numa cantina italiana e o seu pai me levou no Don Pepe em Moema. Vou te contar uma coisa: comi tanto, tanto, tanto que seu pai falou que “tava até com vergonha”; não deixei sobrar nada e ainda saí de lá e quis tomar sorvete Corneto; seu pai estava até passando mal de me ver comer daquele jeito. Claro que depois de um almoço desses, fomos para casa e dormi a tarde toda. À noite fomos jantar na casa da sua vovó, para buscar seu irmão e de novo comi muito, desta vez pizza. Para completar, seu vovô Adilson comprou morangos para mim e me esbaldei de tanto comer. Parece que já estava prevendo que seria minha última ceia, antes de sua chegada.
Logo depois do jantar, era por volta de 21h, comecei a sentir contrações fortes, mas sem dor e percebi que elas estavam muito freqüentes. Falei pro Marcello marcar o tempo e percebemos que elas vinham a cada 3 minutos e duravam cerca de 40, 45 segundos. Após 1 hora de contrações regulares resolvi ligar para a Ana Cris (doula) e ela me disse para contar as contrações por mais 1 hora, para ter certeza de que não iriam parar. Resolvemos então esperar na casa da vovó, pois se fosse mesmo o início do trabalho de parto o Gabriel já ficaria por lá. Depois de 1 hora, as contrações mantiveram a mesma freqüência e continuavam sem dor, mas algo me dizia que era chegado o momento. Fomos então para casa e o vovô veio junto para pegar as coisas do seu irmão. Chegando em casa, arrumei a mala do Gabriel, terminei a minha mala e a sua, deixei tudo separado o que ia levar para a maternidade, tomei um banho, liguei para a Ana Cris de novo e ela resolveu vir até em casa.
Quando ela chegou em casa (por volta da meia-noite) as contrações mantinham o mesmo padrão: freqüentes e sem dor. O papai resolveu ir dormir um pouco; eu e a Ana ficamos na sala assistindo um filme que estava passando na HBO, eu sentada na bola e ela deitada no sofá. Por volta de 1h eu disse para a Ana: “Acho que vai ser isso a noite toda.” e ela disse: “Vamos esperar mais um pouco. Se nada mudar, vou embora e volto amanhã”. Terminado o filme, era mais ou menos 1h30, as contrações apertaram e comecei a sentir dor e uma pressão muito forte no cóccix. Decidimos ir para a maternidade, pois não queria chegar lá quando a dor estivesse ao nível do insuportável. Acordei seu pai, enquanto isso a Ana ligou no Einstein para saber se tinha LDR (quarto especial para o parto) disponível. Não tinha, mas mesmo assim decidi que seria lá mesmo, pegamos tudo e fomos.
Quando entrei no elevador, a dor piorou e lembro que respirava profundamente e falava o que eu chamo de meu mantra: “deixa dilatar, se solta Adriana, a dor vai trazer sua filha” e assim foi durante todo o caminho para a maternidade. No carro, a pressão no cóccix era muito grande e não conseguia ficar sentada; então fui no banco da frente de quatro e falando meu mantra pessoal. Do caminho o papai ligou para a vovó Beth para avisar, ela ia assistir ao parto.
Quando o carro parou em frente ao Einstein (quase 2h), foi bem no meio de uma contração. Eu estava de quatro e falei pro manobrista que abriu a porta: “Esperaaaaaaaaaa!”. Quando a contração passou, saí do carro e não parei, fui direto pro elevador (lembro que me ofereceram a cadeira de rodas, mas eu não podia nem pensar em sentar); não esperei nem o seu pai, que estava tirando as coisas do carro. O segurança veio atrás e disse: “deixa que eu acompanho ela” e me levou até o 5º andar. Entreguei o envelope onde estavam todos os documentos para a internação para a moça da recepção. O papai chegou e continuou a cuidar da burocracia, enquanto isso, eu andava sem parar pelo corredor, sentindo uma dor enorme e muita pressão. Pedi para a moça da recepção não demorar, pois não estava agüentando, senti que minha calcinha ficou molhada, achei que a bolsa ia romper e estava vazando um pouco. Fui para a sala da triagem; a Ana Cris chegou, a enfermeira me deu uma camisolinha e disse para eu vestir. Fui pro banheiro e quando tirei a calcinha vi que tinha um pouco de sangue e não água como eu achava. Fiquei com medo e lá de dentro chamei a Ana, que disse que era normal devido à dilatação. Não consegui terminar de me trocar, estava só de top, a enfermeira falou para eu deitar assim mesmo para me examinar. Essa hora foi a pior, deitar era horrível, a pressão era insuportável. Ela fez o toque e falou: “dilatação completa com rebordo”; a Ana correu e ligou pro Dr. Jorge; a enfermeira queria que eu fosse para a sala de parto, mas eu não conseguia sair dali; a dor estava terrível e cheguei até a me desesperar e falar para a Ana “eu não vou agüentar”. Mandaram seu pai se trocar (colocar roupa esterilizada); a Ana pediu para a enfermeira pegar para ela a roupa, para não ter que sair do meu lado.
Quando todos saíram e só estava eu e a Ana, senti o puxo involuntário e gritei “estou fazendo forçaaaaaaaaa !” (estava sentada na maca de triagem, não conseguia sair dali); a Ana falou: “pode fazer”; veio outra vez o puxo, uma ardência forte na vagina e desta vez deitei e você, minha filha, saiu inteirinha de uma vez, a bolsa estourou na hora e quem te pegou foi a Ana e colocou direto em cima de mim, toda meladinha e com os cabelinhos verdinhos de mecônio.
Nessa hora senti uma sensação que não dá pra dizer. Hoje entendo quando algumas mulheres dizem que é uma sensação orgásmica. É isso mesmo, é uma sensação indescritível. A dor vai embora totalmente, sentia apenas uma ardência na vagina. Quando seu pai apareceu na porta todo paramentado, você já estava no meu colo, ele riu e ficou muito contente quando te viu.
Você nasceu as 2h10 do dia 18/12/2005, recebeu nota de Apgar 8 e 9.
Como você é linda!!!! Moreninha e cabeluda. Uma princesinha!!
Pedi para a enfermeira esperar o cordão parar de pulsar para cortar; ela esperou um pouco, mas teve logo que cortar, pois eu estava com um sangramento um pouco excessivo, comum num parto tão rápido. Além disso, a pediatra que chegou em seguida, queria te examinar logo por causa do mecônio, ela cortou e aí me levaram com você no colo até a sala de parto, lá ela te examinou, te aspirou, te limpou, te deu vitamina K via oral (consegui que não fosse injetável) e não pingaram colírio de nitrato de prata, te pesaram – 3,380 kg (seu pai tava tão emocionado que a foto saiu tremida) e mediram – 51 cm e logo você voltou pro meus braços.
O Dr. Jorge chegou junto com a Dra. Mema e Dra. Andréa; me examinou e constatou que não teve nenhuma laceração importante no períneo; minha placenta ainda não tinha saído e ele sugeriu que você começasse a mamar para estimular a contração uterina e ajudasse na dequitação (saída da placenta). Enquanto você mamava senti uma coliquinha até que toda a placenta saísse. Pedi para que guardassem, pois quero enterrar e plantar uma árvore em cima. É uma forma de agradecer a natureza e a Deus por um parto tão maravilhoso e por você ter vindo perfeita e com saúde.
Depois disso fui levada para uma sala de pré-parto onde a sua vovó Beth pôde entrar.; eu estava numa euforia enorme; também entrou o Dr. Jorge, Dra. Mema, Dra. Andréa e Ana Cris. Foi muito gostoso, conversamos sobre o parto e eu estava radiante com você no colo.
Sua vovó Beth deu o 1º banho em você junto com a Ana Cris que fazia alguns movimentos com você na água que te deixaram super-tranqüila. Eu também tomei um banho e depois de algum tempo fui levada para o quarto, nisso já era 5h30 e eu não tinha sono, minha adrenalina estava a mil, além da alegria e vontade de estar com você, mas infelizmente não consegui que você ficasse comigo direto, tivemos que cumprir as ordens do hospital e você ficou 3 horas em observação no berçário. Nesse tempo tentei dormir, mas pouco cochilei; logo deu 8h e quis ver o jogo do São Paulo, até acordei o seu pai para ele ligar a TV pra mim.
E logo você veio para mamar e ficar ao meu lado...
Te amo!
Mamãe
Agradecimentos:
Obrigada filha, por esse momento mágico que você me proporcionou, sou muito feliz por tê-la ao meu lado e farei de tudo para fazer de você uma mulher realizada.
Obrigada Marcello, por acreditar em mim e estar ao meu lado em todas as decisões que tivemos que tomar. Te amo!
Obrigada Ana Cris, que esteve ao meu lado nessa linda viagem e que me transmitiu uma força enorme.
Obrigada Dr. Jorge pela confiança que me passou nesse pouco tempo que nos conhecemos.
Um grande beijo para Dra. Mema e Dra. Andréa.

Adriana Malteze, São Paulo - SP

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