2 de abril de 2012

O Segredo do Fogo

Artigo de Roselene Nogueira
Nós humanos apresentamos basicamente dois comportamentos mentais: o de compreender e o de mudar a realidade. Quando exercemos o comportamento de compreender, estamos fazendo ciência - e surgem as Leis de Newton. Quando queremos mudá-la, desenvolvemos técnicas - e produzimos fogo com o atrito de pauzinhos e rochas. Mudar a realidade utilizando conhecimentos científicos é produzir tecnologia - é quando construímos foguetes.
Gostar de tecnologia é in. Mais in do que gostar de ciência, porque ciência ganhou uma injusta e incompreensível conotação de coisa demodê, estática, pretérita, com óculos de nerd anglo-saxão dos anos 50 (injusto e incompreensível, pois não há nada mais dinâmico, reciclável e retro-alimentável do que ciência).
Gostar de tecnologia é in. Tecnologia é brilhante, metálica, está no futuro; poder usufruir de aparatos tecnológicos é um privilégio que delimita até mesmo fronteiras sociais, já que usufruir de tecnologia denota poder.
As conquistas tecnológicas na área do conhecimento da obstetrícia parecem ter crescido paralela e proporcionalmente à depreciação cultural dos impressionantes atos femininos de gestar, parir e amamentar. Em que pesem a imprescindibilidade do sêmen sem o qual não há fecundação, e a preponderância (eletiva) do amor que possa existir no casal que gera um filho, é o corpo feminino que contém o único ambiente no universo capaz de abrigar, permitir e colaborar com o desenvolvimento de um novo ser humano, é este corpo que num processo fisiológico extasiante permite nascer esse novo ser humano, e é ainda este corpo que produz o alimento perfeito para a continuidade do desenvolvimento desse ser no mundo extra-corpo-materno.
Sabemos que como todo processo biológico, a gestação, a parturição e a amamentação também apresentam sua chance de insucesso. E nós humanos, com nossa capacidade de modificar a realidade, desenvolvemos técnicas para driblar esse insucesso - e com nossa capacidade de compreender a realidade, produzimos conhecimento científico que identifique esses processos. E estes conhecimentos, evoluindo sob as influências históricas desqualificadoras do feminino produziram a tecnologia dos aparatos que se tornaram indispensáveis para que uma mulher possa ser autorizada a gestar, parir e amamentar comme il faut - usando aqui deliberadamente o francês das etiquetas para dizer: gestar, parir e amamentar como se deve. Como deve fazê-lo uma mulher moderna e sobretudo inconsciente da força muscular de seu útero, da magia química de seus hormônios, do poder de sua psique.
E então as mulheres são informadas de suas gravidezes por exames de laboratório, sentem-se grávidas e curtem seus bebês apenas e durante os emocionantes momentos em que um médico lhes permite ver o jogo de luz e sombras de seu bebê através de aparelhos de ultra-som, são informadas da data em que nascerão seus bebês através dos cálculos de seus cuidadores, que quando lhes permitem o parto normal o fazem dentro da formatação na qual são eles os tomadores de decisão. E decidem quando o trabalho de parto deve iniciar e quais as intervenções necessárias para abreviar o defectivo e incompetente processo fisiológico, esperando-se da mulher o comportamento de paciente, como se o parto fosse patológico - e passiva, como se o parto só pudesse acontecer mediante estas intervenções.
Prometeu foi punido por ensinar o segredo do fogo aos mortais, que pela banalização do uso do fogo foram por sua vez punidos com os sofrimentos da caixa de Pandora. O parto visto como sofrimento é o parto de Pandora, o parto corrompido pela banalização da tecnologia, das intervenções no parto, das cesáreas.
Nesse contexto, parto do princípio que o Parto do Princípio deve ser resgatado à luz das evidências científicas que dispomos no Presente. E à tecnologia reservemos seu nobre lugar de recurso de exceção. 

Roselene Nogueira é mãe de Heloisa, Beatriz e Isabela (3 partos normais hospitalares) e arquiteta.

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