17 de abril de 2012

A angústia do não falar...


Eu poderia ter dito àquela mãe que quem estava perdendo era, principalmente, ela. Nada do manjado papo de que o 'leite materno é o melhor alimento'... todo mundo já sabe disso.
Depois de cerca de 4-5 meses de amamentação exclusiva, estava ela, à minha frente, dizendo que havia desmamado seu bebê e que estava tomando medicamentos para parar a produção do leite materno.
Quem perdeu? os dois, certamente! O bebê não receberá mais sua dose diária de vacina, nem aquele colinho único de peito de mãe... mas a mãe perdeu mais!
Eu poderia dizer para ela que a amamentação, nos dias de hoje, seria uma das poucas vivências femininas autênticas que ela teria para desfrutar. Num mundo de cortes na barriga para nascer e gestações monitoradas, amamentar é o que resta para muitas mulheres...
Eu poderia ter insistido com ela que todas aquelas mastites de repetição no seio direito, em verdade, queriam dizer alguma coisa, mas nunca que ela deveria suspender a amamentação natural.
Não, não era a mastite. Era seu bebê desesperadamente clamando por contato. Não digo nem contato físico, ele queria conexão emocional, espiritual, energética com essa mãe. Eu poderia ter dito isso a ela.
É, eu poderia sim ter dito que amamentar é se fazer fêmea, selvagem e única e que isso tem um preço. Que era preciso despir-se das inúmeras máscaras que colocamos todos os dias para os mais diferentes tipos de pessoas e situações e sermos apenas nós, assustadoramente verdadeiras, em carne-viva.
Eu poderia ter falado que o puerpério desvela em nós os véus que colocamos para maquiar nossas vidas e nos expõe nua, em pêlo. Que nossa sombra, aquela parcela de nós que não gostamos, não queremos ver, vem com força arrebatadora, construindo e destruindo... e, para quem quiser aproveitar a tsunami, é o momento de salvar a si mesma e ser mulher, talvez pela primeira vez na vida.
E eu deveria ter dito que amamentar dá medo. Sim, é assustador constatar a simplicidade da vida em tempos de artificialidade. Assusta ver que eles vivem e crescem durante seis meses a despeito de qualquer coisa criada pelo homem! "Como isso?", diriam algumas. "Eu precisei de artifícios para engravidar; eu fui analisada mês a mês com aparelhos de ultrasom; no dia determinado pelo médico eu fui cortada e me entregaram um bebê avaliado, pesado, medido, asseado; e, agora, eu não preciso de mais nada para criá-lo? Só o leite que me verte?".
Dá medo confiar num seio tão diferente da mamadeira graduada. Quanto ele mamou? Como mamou? Não importa... a natureza fez de uma maneira que fosse irrelevante fazer estas perguntas.
Eu poderia ter argumentado ainda que o bebê não mama apenas leite, ele mama amor, energia, fluidos sutis da mãe, quando está no seio. Não é só leite; é amor, confiança, resiliência, fé na vida... assim ele mama. Alimenta seu corpo e sua alma.
É, eu talvez tinha que ter dito que se tratava, ali, do início de uma separação que deveria ocorrer somente por volta dos dois anos. Que, com alguns meses, o bebê ainda é fusão pura, simbiose pura. Ele é o que ela é. Ele está como ela está e que isto seria um maravilhoso mecanismo de crescimento pessoal.
Seria um passo sem volta, eu diria a ela. um passo que provavelmente vá doer quando este mesmo filho, já adolescente, mostrar completo distanciamento desta mãe, enquanto ela volta a linha do tempo na cabeça e se pergunta onde errou.
Eu poderia dizer que choro de culpa que ela demonstra agora na minha frente por "tadinho", "tirar o leitinho dele" é, na verdade, o choro da mulher que ela poderia ser. O choro de todo o potencial de amadurecimento, de libertação, do que ela deveria perseguir e não quis. É o choro, na verdade, da vergonha de não enfrentar, de não fazer as perguntas difíceis, de optar pelo mais fácil e mais cômodo. É a dor de não crescer. Esta sim, mais doída e muito mais exigente do que a dor de enfrentar e seguir adiante.
Dentro daquela mulher cheia de argumentos superficiais e paliativos médicos para desmamar sua cria, uivava uma loba sedenta de feminino...
Mas eu não disse nada.
Ouvi toda a estória das mastites, dos antibióticos, do bebê não querer 'mamá', dos bicos escoriados, do início das papinhas e do leite artificial, do veredicto médico...
Ouvi tudo, muda, sem tecer uma só palavra, apenas assistindo, com pesar, o desmoronar da fêmea... talvez deveria ter dito algo. Talvez deveria ter, como 'procuradora constituída', falado em prol do bebê. Quem sabe eu deveria ter gritado com ela, batido na mesa, arregalado aqueles olhos, rosnado... mas não, só consegui fazer sair um "eu entendo" minguado e atônito.
Minha tristeza não foi nem tanto pelo bebê; ele escolheu a mãe que tem e, do ponto de vista nutricional, ele vai seguir muito bem. Será um bebê amado e feliz.
Doeu-me a amiga, a mulher, a mãe que estava ali na minha frente, presa em uma armadilha sutil, abrindo mão, deliberadamente, de crescer.
Cariny Baleeiro Tadiotto Cielo, graduada em Direito, servidora pública, praticantes de ioga, mãe e integrantes da Parto do Princípio.

1 comentários:

Christiane Maia disse...

Lindíssimo... Profundo, sensível e visceral! Nenhum homem ou mulher que não amamentou é capaz de entender o poder transformador de uma entrega real à relação que se firma com a amamentação! Parabéns pelas brilhantes e sentidas reflexões sobre sobre esse caso.