5 de março de 2012

Violência obstétrica é violência de gênero: uma tese (parte IV)


Essa é a quarta (e última parte) de um post sobre a tese de doutorado da pesquisadora Janaina Marques Aguiar.
Bom, já apresentamos alguns trechos da tese que abordam a violência de gênero e também trechos que discutem o que é violência e como ela é percebida, aceita ou confrontada pelas mulheres. Na tese, Janaína discute com aprofundamento todas essas questões.
Depois disso tudo, para finalizar, pincei apenas dois parágrafos. Nestes, fica exposto como o olhar machista – de domínio de quem tem força, poder e saber sobre quem não os possuem – conduz a assistência obstétrica para o médico/equipe de saúde e não para e pela mulher em sua integridade.
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Nesse contexto a mulher sofre uma dupla objetificação: seu corpo é tomado como um objeto de controle e domínio da medicina e como meio para se chegar a um fim – o bebê. Visto como fim último do parto, o bebê, via regra, é o produto mais importante de todo esse processo, para a mãe e para os profissionais. A esse respeito, Martin (2006) reflete sobre o uso cada vez maior de tecnologias e prescrições médicas sobre a gestante a favor do feto, em detrimento dos próprio desejos e direitos desta. Ou seja, a mulher é deixada de lado, como sujeito, e vista apenas como um corpo reprodutor. (p. 177)
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Neste sentido, a melhor humanização para alguns profissionais é dar às pessoas toda a tecnologia que há disponível e, sob esta lógica, a cesárea ou o parto normal “intervencionista” são considerados “humanizados”. Ocorre, então, uma inversão ética da contemporaneidade: o parto normal humanizado é tido pelo profissionais como um parto “abandonado” e a cesárea seria o parto sem dor. (p.182)

Existe um discurso que vem sendo insistentemente divulgado de que as mulheres é que querem cesárea. Mas, se humanizar o atendimento obstétrico para os médico é tornar o trabalho de parto mais rápido e indolor, é lógico que a mulher vai preferir uma cirurgia cesárea do que um parto cheio de intervenções: episiotomia (corte na vagina), kristeller (empurrar a barriga da mulher para baixo), ocitocina sintética (que torna as dores mais intensas).
Aliás, leitora, antes que você termine o texto: parto normal não precisa episio, kristeller, nem ocitocina sintética. (Para saber mais acesse nosso site).
Assistir a uma mulher em trabalho de parto requer tempo e paciência. Requer experiência em partos normais, mas também humildade para compreender que cada corpo tem seu tempo. Requer diálogo com a parturiente. A cirurgia cesárea requer só técnica.
Para assistir um parto humanizado, a equipe precisa conhecer a paciente, e a paciente precisa se sentir segura com a equipe. Para fazer cesárea (sem indicação clínica), basta a paciente ser anestesiada e ficar quietinha.
Afinal, essa cirurgia é melhor e mais fácil pra quem? Dá o que pensar, não é?
Stella Zanchett

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