2 de março de 2012

Violência obstétrica é violência de gênero: uma tese (parte III)


Essa é a terceira parte de uma análise sobre a tese de doutorado da pesquisadora Janaina Marques Aguiar. Estamos apenas pinçando partes da tese de Janaína, que é muito mais aprofundada (e rica em depoimentos muito bem analisados, vale a pena conferir!).

E mesmo pinçando apenas alguns parágrafos, dá pra gente pensar em muita coisa. Afinal, o que é violência? Quais são os limites entre “falta de educação”, “grosseria”, “mau-trato” e “violência”?
[...] ao se falar da violência institucional nas maternidades (como uma violência exercida por profissionais de saúde contra suas pacientes) a princípio a associação a que somos remetidos é dessa violência com um uso abusivo do poder do qual são investidos estes profissionais numa relação que é por definição assimétrica (p.24)
[...] O extremo da violência seria a introjeção da vontade do outro como própria, resultando em uma heteronímia que seria a “violência perfeita” (p.26)
[...] O que observamos, e será demonstrado na análise, foi que para a maioria dos entrevistados, tantos puérperas quanto profissionais, os maus tratos não eram sempre identificados como uma “violência”, mas ao serem solicitados para definir o que consideravam uma violência dentro dos serviços de maternidade suas definições coadunavam com os exemplos citados de maus tratos. (p.55)
[...] Assim, o maltrato frequentemente é retratado pelas entrevistadas como um mau atendimento pela falta de manejo da dor, seja na cesárea ou parto normal (antes, durante e depois do parto); pela ocorrência de complicações após a alta médica (traduzida por uma negligência ou falha técnica na assistência); pelo abandono ou negligência; pela exposição desnecessária da intimidade da paciente; por dificuldades na comunicação, desvalorização de suas queixas ou falta de escuta ao que elas têm a dizer e, sobretudo, por tratamento grosseiro e discriminatório. Importante ressaltar que todos esses aspectos que definem um mau atendimento para nossas entrevistadas foram encontrados nos dados de outros estudos a esse respeito. (p.87)
[...] ... ao investigarmos sobre o que as entrevistadas entendem por “violência” muitas definições se restringiram ao uso da força física principalmente na esfera doméstica, além da violência moral (xingar, falar abusado) e sexual (estupro ou relação forçada por parceiro íntimo). Ao longo da entrevista após relatarem atos de maus tratos e desrespeito, e questionadas pela primeira vez sobre a violência dos serviços de saúde, as entrevistadas associaram as vivências com a violência institucional. (p. 138)
[...]Por outro lado, uma vez que a “violência” foi considerada por muitos [profissionais de saúde] entrevistados sempre como algo de maior gravidade, alguns não perceberam os desrespeitos contra as pacientes, na maternidade onde trabalham, como uma violência institucional. Vemos aqui, portanto, que tomar a violência como algo de maior gravidade, o que, em contrapartida, faz com que os desrespeitos contra as pacientes pareçam menos graves, possibilita que sejam mais bem aceitos e também faz parte do processo de banalização da violência institucional. (p. 150).

Bom, essa seqüência de trechos já dá pano pra manga. Todas estão convidadas a comentar! Só gostaria de enfatizar que quem selecionou essas partes do trabalho fui eu e que isso aqui não corresponde exatamente ao trabalho e ao pensamento de Janaína, ok?! E quem quer discutir com propriedade, deve ler a tese na íntegra, disponível para baixar aqui.
Stella Zanchett, jornalista

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