7 de março de 2012

Violência obstétrica e a decisão de parir: quando a viagem de avião é dispensável


Falta um mês para que o grande divisor de águas na minha vida aconteça: a partir dele, vou deixar de ser apenas filha para virar, de repente (e essa palavra ainda me causa estranhamento), uma mãe! Hoje, claro, idealizo, penso e sorrio com essa coisa tão grande que me escapa. Não sei ainda como será estar do lado de 'lá', mas um fato adotei como certo: não quero viver a gravidez apenas mentalizando o paraíso da futura maternidade. E o meu jeito de viver a maternidade de hoje é preocupar-me exatamente com o tal divisor de águas: o parto.
E o divisor de águas parece um bocado assustador, não?
Com tanta tecnologia ao meu dispor, eu bem poderia passar por ele de olhos fechados, em um avião, para não ter que enfrentar o medo de um mar que se abre no meio. Mas não. Quero estar com o pé na terra e quero ver e sentir as ondas, de cada lado, querendo se jogar contra mim. Quero ver a água, cristalina e gigantesca, se formando. Não quero pular etapas. Não quero que me usurpem o direito a esse momento, como se ele fosse apenas uma transição dolorosa que, anestesiada, relegada à mão de condutores de aviões, me garantiria uma passagem supostamente mais fácil.
Desde que assumi o parto como meu e do meu filho, tenho procurado o melhor para nós. Tenho procurado me informar sobre tudo, e me manter de olhos bem abertos e em alerta a todas as informações dos velhos e jovens navegantes para que essa estrada seja percorrida com total consciência e segurança para ele e para mim. Deixo de lado tudo o que me disseram e, já aqui, com os primeiros pés no divisor e sentindo o gosto da água salgada, me liberto de nadadeiras e insisto: quero parir.
Pois bem. Vai ser em casa. É assim que o Javier vai nascer. Os deuses - "que vendem quando dão melhor saber" - sabem como percorri estradas e mais estradas antes de decidir que era esse o caminho melhor a atravessar. Paguei ouvindo absurdos a partir dessa decisão. Paguei ouvindo algumas acusações implícitas: teimosa, turrona, irresponsável, inconsequente. Paguei ouvindo também argumentos bastante esclarecedores e até plausíveis de grandes profissionais, a respeito de riscos de 1% de que ele nascesse com certo problema, ou 5% de que nascesse com aquele, cujas especificações nem mesmo me recordo.
Acontece que, para mim, topar com os riscos de 1% ou 5% são bem mais fáceis do que lutar contra os 75% de terminar em uma cesariana, por exemplo, ou de outros grandes riscos que acontecem com semelhante frequência dentro de hospitais, como uso rotineiro de ocitócito e litotomia (contrações causadas por sintéticos deixam o útero muito mais 'fechado' do que o bebê suportaria naturalmente, e a posição deitada é comprovadamente a que mais dificulta a saída do bebê) e manobras, causando um sofrimento fetal nessa criança que conseguiria deixar meu útero tranquilamente sem tantas interferências rotineiras.
Repito, nada contra as intervenções hospitalares necessárias. Absolutamente nada contra (ao contrário, tudo a favor) às boas práticas médicas que salvam vidas, que protegem um nascimento de risco.
Minha discordância é outra.
Embora os jovens profissionais estejam caminhando para o que acreditam ser a humanização, há muito o que galgar ainda sobre o que chamamos de uma verdadeira 'rotina hospitalar'. Essa briga, já cheia de ramificações, segue entre a realidade obstétrica, a difusão de mitos e os duelos por poder. A mulher relega-se à periferia dessa confusão e se torna barquinho fácil na correnteza carinhosamente chamada de 'cautela'.
Ocorre que, se o sofrimento fetal é causado, em grande parte das vezes, pelos próprios procedimentos rotineiros cometidos lá, dentro mesmo, do hospital, por que eu iria me sentir mais segura com meu filho nascendo lá, do que aqui, em casa, com todos os cuidados e assistência, mas com o mais importante: nossa natureza falando mais alto, nossa privacidade e aconchego, nossa certeza de que esse momento é uma transição fisiológica, natural, transformadora e íntima, e não uma extração clínica?
Não quero correr o risco de submeter meu filho e eu a contar meramente com a sorte de estar no lugar certo, na hora certa, quando esse momento específico ainda é uma minoria dentre as atividades médicas que 'praticam pela prática', porque assim aprenderam, porque na busca pelo mais 'seguro' transformam algo que viria com muito mais segurança e magia em um momento técnico 'que deve ser superado' sob o aterrador argumento de que o bebê está ali, vivinho da silva, e é isso o que importa. Como se ele não estivesse caso não utilizassem todos esses equipamentos e toda a tecnologia disponível.
Quando chega o mês de março, chovem notícias e artigos sobre violência contra a mulher. Mas só agora, acredito, tem se difundido os argumentos e as declarações sobre a violência obstétrica. Exemplos vivos, constantes, cortantes. Nesse instante, pedem-me então para deixar de radicalismo e 'relativizar'. Mas como posso relativizar o fato de que 45% de mulheres revelam ter sofrido algum tipo de violência no parto? Como posso relativizar o fato de que a humanização no nascimento, que embora tenha diretrizes bastante claras recomendadas pela Organização Mundial de Saúde, são sutilmente ou veementemente desprezadas pelos próprios doutores?
Não deixa de ser violência, ao meu ver, a falta de informação da própria mulher sobre um fenômeno tão importante quanto o parto. Não deixa de ser violência o excesso de medicalização em nome de um 'controle médico' sobre a natureza, nossa grande mãe; e não deixa de ser violência a pressa imposta que faz a mulher descarregar a adrenalina e interromper a comunicação com seu próprio corpo, deixando-o, por fim, inerte, para que outros intervenham sobre ele e retirem aquela alma nova que já estava pronta para sair de seu lar antigo sem empurrões, sem sufocamentos, e com a ajuda de uma mãe-útero que estaria junto com ele, a todo momento, não fosse seu estado de embriaguez química.
Não quero embriaguez, quero ocitocina das boas, aquela pura e natural, a que meu corpo mesmo produzirá. Quero confiar plenamente nesse corpo, e essa certeza vem forte porque confio igua e totalmente no meu filho e em sua plena força e capacidade de encontrar o lado de fora, de vir para os meus braços. Não quero submetê-lo à condução de terceiros no primeiro momento de sua chegada, quando sei que, nessa viagem de avião, dita segura e mais rápida, muitos pilotos acham que o aeronave leva carga, não gente.
É. Ninguém falou que essa travessia seria fácil.
Mas penso que a pré-travessia tem sido muito mais desgastante, porque vivo a insistir na legitimidade do meu direito de percorrê-la. Já me falaram sobre perigos de me afogar, caso caimbras me atinjam. E eu rebati: posso flutuar! Falaram mais: que lá no fim é quadrado, que vamos cair num abismo, e que seríamos atacados por dragões e monstros, porque assim dizem os 'grandes navegantes', mas eu insisti: "se os tais dragões aparecerem, a espada de São Jorge nos protege".
No íntimo, na verdade, meu sangue fervia pela intuição de que os tais dragões não passam de moinhos. Moinhos que já não mais conseguem mover as águas desse mar. que vão ficar paradinhos, vendo a gente passar.
Mas quero falar de esperanças também! É que me alegro ao ver que há os que abandonam o avião para segurar uma bóia de assistência à mulher que decide nadar, e com os próprios braços, encontrar esse paraíso: o olhar alerta de uma pequena criatura que estava com ela em todos os momentos e que, sem vê-la, sabia que o tempo todo estavam juntos. E que conseguiriam.
artigo de Wanessa Oliveira, jornalista.

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