15 de março de 2012

Mulheres domesticadas


Nascemos mulheres num mundo que nos domestica desde o primeiro furinho na orelho para o famoso e desejado adorno do brinco. Ficamos horrorizadas com as mutilações feitas com nossas semelhantes na África (e são mesmo atrocidades), mas esquecemos que, inúmeras vezes, no cootidiano, somos violentadas, castradas, aprisionadas.
Assim que nascemos, recebemos nossa vagina com pavor! Não brinque na rua, feche essas pernas, não se suje, não fale alto, não rale as pernas, não prove nada novo, não mexa com insetos e nem répteis, não lute, não brigue, não pise na grama, nem no barro, nem na terra, aliás, nunca ande descalça... e assim se vai sufocando a menina-selvagem e criando a menina-porcelana. Tão boazinha, tão quietinha, tão perfeita...
Quando a menarca chega, ela traz medos, dores, rejeição. 'Odeio ser mulher' ela repete em silêncio a cada anúncio de sangue mensal. Cólicas, cansaço, humores e maus humores, restrições... maldição! Ela segue a juventude maldizendo seu sagrado sangramento. Ovula com pudor, com nojo, com rejeição.
Mais madura, ela busca o amor e para tal imagina, mais uma vez, que precisa adequar-se aos moldes. Ser magra, (melhor ainda se for esquelética), ou malhada (com coxas de jogador de futebol), ou muito bem-sucedida (diz-se aqui, ganhar muito bem).
No trabalho ela sufoca sua sensibilidade para parecer masculina, agressiva, estável, impecável. No salto agulha ela se equilibra na selva masculina e, assim, diz-se feliz, realizada. Ledo engano! Mulheres não são estáveis, nunca... oscilam como a lua. Não, elas também não são impecáveis, pois acordamos às vezes divas e às vezes gatas-borralheiras. Não, ela não está bem, o que ela está é domesticada (lembram da garotinha? Tão perfeitinha, tão boazinha? Olha ela aí...). Cortaram-lhe as garras, serraram-lhe os dentes e ela segue vivendo assim, meio mulher, meio homem. Pintando o cabelo para disfarçar não os brancos, mas a alma sufocada.
E eis que a vontade de ser mãe ressoa. De alguma forma, esse desejo vem até a mulher e ela, então, começa a pensar na maternidade.
Ocorre que durante toda sua existência como fêmea ela rejeitou seus óvulos, ela apagou sua chama, seu fogo interno. Ela viveu uma vida ensaiada, sem protagonista. Ela imitou a novela, imitou a magrela de hollywood ou, pior ainda, ela não conseguiu imitar ninguém e seguiu se sentindo uma estranha, muito estranha... quase uma pária.
E agora? Os óvulos congelados não vem, os hormônios escondidos à custa de drogas não surgem, a psiquê de 'receber' e de se 'dar' não está presente. Ela sofre em silêncio porque ser mulher requer agora um ato de fé que ela não aprendeu a fortalecer. Não, não estou falando da fé em um Deus distante, racional e masculino. Nem tampouco a fé em médicos e exames.
Estou falando da fé em sua natureza. Em seu feminino, em sua fisiologia, em sua capacidade para receber, gestar, parir e amamentar. Agora que ela segue, seja procurando conceber, ou seja gestando, ela está realmente só. A boa notícia é que aquela menina-selvagem foi apenas sufocada, ela não morre. Sempre existe a oportunidade de virar a mesa, chutar o balde, tapar os olhos e ouvidos e seguir pela selva, mesmo no escuro, o cheiro familiar de ser mulher.
Para a maioria das mulheres que não irão conseguir, ao menos não desta vez, libertarem-se das amarras sociais, religiosas, culturais, enfim, a concepção é mecânica e a gestação patológica.
Ela se entrega aos médicos (mesmo que sejam médicas, essas 'médicas' muitas vezes conseguem ser mais masculinas que muitos homens) para conceber, para gestar, para parir e, ao final, como ninguém pode dar mamá ao bebê por ela, ela compra uma mamadeira, ícone do artificial.. onde é que foram parar seus seios mesmo?
De resto, tudo pode ser transferido de responsabilidade. "Por favor, coloquem embriões em mim" (ela já não confia em sua capacidade de ovular); "cortem minha barriga e me dêem o meu bebê, são e salvo" (ela não confia que será capaz de suportar o trabalho de parto e trazer seu filho ao mundo). Será mesmo que eles, mãe e bebê, nascidos nestas circunstâncias de pouca fé estão mesmo 'sãos e salvos'. Eles estão saudáveis, é verdade, mas não, ela não foi salva.
Mas é claro! Não haveria de ser diferente... como exigir conduta adversa? Ela não foi ensinada a confiar em si. Ela não aprendeu a se ouvir, a conhecer seus cheiros, seus instintos, sua intuição. Seguiu sufocando toda e qualquer manifestação natural, tudo que não fosse comprovando cientificamente... e, assim, segue a vida comportada da mulher moderna.
Como é que uma mulher que ouviu que não é boa para engravidar, que ouviu que não conseguirá parir, irá acreditar na amamentação? "Essa coisa de dar peito, expor-se, espoliar-se, não tem nada a ver comigo". Ela está certa, não tem mesmo... Tem a ver com uma mulher que ela aprendeu a adestrar e que está muito bem guardadinha nos recônditos subterrâneos de sua alma.
Amamentação é poesia pura. É confiança pura. É acreditar no invisível. Eu ganhei um diário onde estava escrito, numa parte, assim: "mensagens que você gostaria de deixar para outras mulheres". E aqui vai a minha mensagem: Rebelem-se, rasguem suas fantasias, acreditem no invisível. Não deixem que lhe digam o que fazer, nós crescemos agora, e nunca fomos de porcelana. Olhem para dentro de si, mesmo que hoje, agora, a imagem não seja tão boa. Mesmo que doa, conheçam-se. Deixem fluir seu poder de fêmea! Eu garanto que vocês vão se sentir em casa.
Cariny Baleeiro Tadiotto Cielo, graduada em Direito, servidora pública, praticantes de ioga, mãe e integrantes da Parto do Princípio.

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