29 de fevereiro de 2012

Violência obstétrica é violência de gênero: uma tese (parte II)


Este texto é uma continuação do post sobre a tese da Janaína Marques Aguiar, que aborda a violência institucional em maternidades públicas como uma questão de gênero.
Abaixo, alguns trechos da tese. Por si só, essas partes do trabalho de Janaína dão uma excelente abordagem sobre as formas como a violência obstétrica acontece, mas permanece invisibilizada entre outras razões por sua banalização nos serviços.
Em um artigo sobre a construção da identidade de gênero e suas ideologias, Anyon (1990) argumenta que há um processo simultâneo de acomodação e resistência, para homens e mulheres, aos papéis sexuais socialmente impostos. Segundo a autora, a dialética entre acomodação e resistência faz parte do repertório de reações e respostas de qualquer pessoa a contradições e situações de opressão que diferem de acordo com o gênero, classe social, etnia, nacionalidade, dentre outros.
No que se refere às mulheres, Anyon (1990) ressalta que raramente há uma aceitação ou rejeição completa quanto às expectativas estereotipadas de atitudes e comportamentos apropriados aos papéis sexuais. O desenvolvimento da identidade de gênero implica um movimento dialético tanto de recepção passiva quanto de reação ativa às mensagens sociais contraditórias, como ser boa mãe, boa esposa, boa dona de casa, e ao mesmo tempo ser bem sucedida profissionalmente. E estas reações individuais e coletivas realimentam e redefinem continuamente as próprias expectativas e normas sociais. (p.30)

[...]
A primeira coisa que nos chama atenção é quanto ao reforço dentro da instituição da redução da mulher ao seu papel de mãe. Ao entrar na maternidade em muitos casos a mulher perde a sua identidade e se torna apenas “mãe”. Mais da metade das entrevistadas relatou ter sido chamada de “mãe” ou “mãezinha” todo o tempo pela equipe médica e em todos os casos elas perceberam esta conduta como “normal”, “legal”, um gesto “carinhoso” por parte da equipe. O apelo ao papel materno se dá em um contexto que se busca a conformação da paciente à sua dor como algo natural do processo de se tornar mãe e sua responsabilidade em trazer aquela criança ao mundo. [...] dentre as representações de gênero que surgiram na fala das entrevistadas, destacamos a naturalização da dor do parto como uma reprodução ideológica da submissão social da mulher, a figura da paciente “escandalosa”, como aquela que não se submete à obediência que lhe é imposta e esperada, dando voz a suas queixas e à sua dor, e a solidariedade de gênero através de estratégias de resistência às várias formas de maus tratos a que estão expostas estas mulheres. (p. 89).

Os atos de sexismo se materializam na fala das pessoas, só que, geralmente, as pessoas falam “sem intenção” de ser machista ou opressor. A pessoa que fala algo como “não grita agora que vai parir, porque na hora de fazer você gostou”, na maioria das vezes só está reproduzindo uma fala que já ouviu. E essa pessoa não necessariamente é contra o prazer sexual feminino. Aliás, quem fala isso pode até ser uma mulher leitora de NOVA, que adora ver, todo mês, as “50 dicas para pôr fogo na cama”. Se por um lado ela quer gozar, por outro, ela não acha que seja ruim chamar uma paciente de “mãezinha” ou dizer coisas como "na hora de fazer não chorou, então agora aguenta".
Vivemos imersos, mesmo que não plenamente consciente ou de acordo, em uma cultura que ainda se apóia em valores judaicos-cristãos de culpabilização da mulher pelo prazer sexual (a Eva expulsa do paraíso) e do sexo voltado apenas para fins reprodutivos (afinal, a virgem Maria concebeu sem pecado). E essa cultura se expressa em nós e por meio de nós o tempo todo.
Falas como “não grita, não dá vexame!” reforçam um estereótipo: mulher é mãe, e mãe sofre, e tem que sofrer quieta (ou, com “classe”). Quem não segue esse padrão é chamada de histérica, de escandalosa, de psicótica, de feminista, de tudo menos de MULHER.
Nesses parágrafos fica mais evidente a opressão de gênero a que as mulheres são submetidas na assistência obstétrica. Mas, é bom destacar que o sexismo perpassa toda a cultura da nossa sociedade. Cabe a nós questionar essas posturas. Papéis pré-estabelecidos para homens e mulheres prejudicam todas as pessoas e tolhem suas possibilidades e anseios.
Amanhã, seguimos com mais um post dessa sequência sobre a tese de Janaína Aguiar.
Stella Zanchett, jornalista

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