27 de fevereiro de 2012

Violência obstétrica é violência de gênero: uma tese


Quem acompanha o blog da Parto do Princípio já sabe que estamos nos preparando para o Dia Internacional da Mulher, 8 de março. Nesse dia queremos reivindicar mais respeito a nós, mulheres, durante a assistência ao parto. Nossa ação será para dar visibilidade à violência obstétrica.
Sobre esse tema, recomendamos a leitura da tese de doutorado da pesquisadora Janaina Marques Aguiar, intitulada “Violência Institucional em Maternidades Públicas: hostilidade ao invés deacolhimento como uma questão de gênero”.
Janaína fez entrevistas com mães, enfermeiras(os), técnicas(os) de enfermagem e obstetras. Com base nas falas dos entrevistados, a autora analisa como a violência obstétrica se manifesta, apesar de, na maioria das vezes, tanto usuários como profissionais considerarem apenas um “mau trato", ou brincadeira de mau gosto.
A tese começa apresentando as definições com as quais trabalha, demarcando como a análise da violência obstétrica, conceitualmente, se situa numa intersecção entre a questão de gênero e a assistência em saúde.
[...] se considerarmos que o campo da maternidade é por excelência onde se exercita não só a função biológica do corpo feminino, mas uma função social do papel conferido à mulher regulado por uma construção simbólica, toda e qualquer violência neste campo é fundamentalmente uma violência de gênero. E, uma vez que o próprio conceito de gênero está interligado a fatores culturais, sociais, econômicos, políticos e étnicos, já que as mulheres se distinguem de acordo com o contexto social no qual elas estão inseridas, esta violência perpretada nas maternidades (públicas ou privadas) é atravessada também por estas questões.
É sob esta ótica que abordamos e refletimos sobre a fala dos sujeitos da pesquisa no que se refere às suas experiências de um lado mulheres mães, usuárias de serviços públicos de saúde e pacientes submetidas a um modelo biomédico hegemônico de dominação e controle de seus corpos e sexualidade; de outro lado homens e mulheres que no exercício de sua profissão também estão inseridos neste modelo biomédico e suas normas. Todos, sujeitos concretos que são ao mesmo tempo produtores dos grupos sociais aos quais pertencem. Estamos considerando, portando, que todo individuo é um agente criativo na construção de sua identidade de gênero, ou seja, na forma como se coloca enquanto homem ou mulher em relação às normas da sociedade em que vive, no exercício de suas práticas cotidianas, de sua sexualidade e nas relações de poder nas quais se engendra. (p.23)
Bom, esses trechos da tese da Janaína são apenas para dar um gostinho do que vem por aí. Amanhã começa uma sequência de quatro posts com outras partes interessantes da pesquisa. 
Stella Zanchett, jornalista


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