2 de fevereiro de 2012

Parto domiciliar e mídia: o que é mais perigoso?


A intensa divulgação e ironização da notícia de que uma militante do parto domiciliar faleceu APÓS ter dado à luz à sua filha chegou ao grupo da Parto do Princípio (é importante destacar que em nenhuma notícia consta a verdadeira causa da sua morte, o que não nos permite concluir se, em um hospital, ela sobreviveria). 
Após o debate, concluímos que mais perigoso que o parto normal é a mídia que é parcial e espetaculosa, que não divulga informações e dados baseados em evidências, mas sim, se presta a disseminar e consolidar mitos e medos. A seguir, o comentário da obstetra Melânia Amorim, que resume a nossa posição.



A matéria original [Mãe que defendia parto residencial morre após dar à luz filha em casa], cujo link me foi enviado, como boa parte das matérias da mídia brasileira, é pouco informativa e um pastiche da mídia internacional, uma vez que aqui se copia deslavadamente as publicações internacionais.
Ainda não pude descobrir os detalhes do caso, porque pelo que entendi houve a transferência para uma UTI onde a paciente morreu um dia depois do parto. Tampouco sei ainda a causa. O que sei é que nos últimos 12 anos na Austrália essa foi a primeira morte por parto domiciliar.
Evidentemente, por mais raro que seja o desfecho morte materna nos países desenvolvidas, evitar TODAS as mortes é virtualmente impossível, e UM relato de caso não é argumento convincente contra parto domiciliar, porque o que é necessário é comparar mulheres de baixo risco que tiveram parto domiciliar versus hospitalar e avaliar a frequência de desfechos adversos em cada grupo.
Até agora, nenhum estudo comprovou aumento do risco de morte materna em partos domiciliares, incluindo a coorte holandesa com mais de 600.000 partos. Claro que se irá dizer que o evento é raro e que uma casuística maior é necessária para afastar o risco, mas essa é uma evidência mais consistente que um relato de caso.

Relato de caso por relato de caso, eu posso vos contar de uma parada cardíaca durante uma cesariana eletiva sem indicação médica definida, e de uma fasciíte necrosante após cesariana eletiva para ligadura tubária, ambas resultando em mortes maternas de mulheres de baixo risco nas duas cidades em que trabalho. Poderia vos contar outros casos, mas é preferível não discutir com base em relatos do que eu vi ou da "minha experiência", bem como prefiro ignorar a péssima cobertura da mídia em relação ao parto domiciliar.

Lamento muito a morte da Caroline, porque como diria John Donne, "a morte de qualquer homem afeta a mim porque faço parte da humanidade", e a morte materna, onde quer que ocorra, é sempre uma tragédia. Mas acho injusto utilizar a sua história como propaganda anti-parto domiciliar. Preferiria que em vez disto estivéssemos discutindo estratégias para tornar mais segura a assistência ao parto em todos os níveis, o que inclui, inevitavelmente, tentar reduzir a absurda taxa de cesárea no Brasil.
A propósito, eu não sei por que tanta implicância com o percentual baixíssimo de mulheres que optam por ter parto domiciliar em nosso país. Embora conservador, o posicionamento do ACOG é bem mais coerente que os de nossos conselhos e sociedades, uma vez que, embora alegue "maior risco" para os partos domiciliares (o que considero um equívoco, porque o ACOG se baseou na enviesadíssima metanálise de Wax para chegar a essa conclusão), em sua diretriz o Colégio Americano reconhece que é um direito das mulheres a escolha do local de parto, e que esforços devem ser envidados no sentido de se garantir a segurança do parto domiciliar.

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