24 de janeiro de 2012

Mentira e solidão

Quem está familiarizada com discussões a respeito do parto sabe de cor o que não quer para o momento do nascimento de seus filhos, ou, caso não planeje ter mais filhos, o que deseja combater no cenário obstétrico nacional em benefício de outras mulheres. São intervenções mecânicas, medicamentosas ou cirúrgicas, praticadas rotineiramente sem o devido apoio em evidências científicas, que além de não trazerem qualquer benefício quando empregadas arbitrariamente, tornam o parto um processo sofrido, doloroso e perigoso.

“Perigoso?”, diriam os médicos tecnocratas e qualquer pessoa leiga que não tenha recebido as informações necessárias para se desvincular da cultura dominante. “Mas a tecnologia está aí justamente para salvar vidas...” E aí se esconde a maior violência obstétrica praticada em nosso país, maior que os cortes, as suturas, as roturas: a mentira.
É facil comentar, numa lista de discussão sobre parto ou num encontro de um grupo de apoio a gestantes da rede Parto do Princípio, o absurdo da cesárea da sua colega aos 8cm de dilatação porque o bebê estava alto. Mas conte a história em qualquer outro lugar - no trabalho, numa roda de amigos, num encontro de família -, e quase todos dirão que foi melhor assim, que os médicos sempre fazem o melhor para a mãe e o bebê. E que você está sendo muito radical.
E o que faz a mulher que foi operada sem trabalho de parto porque a placenta estava velha, ou que sofreu uma episiotomia porque o bebê era muito grande? Diz para si e para os outros que foi necessário. Para não sofrer ainda mais, para não se sentir enganada, humilhada, violentada. Para muitas, a negação é a única forma de sobreviver e permanecer inteira para cuidar do seu bebê.
Não digo que seja benéfico remoer eternamente as chagas de um parto mal assistido e desrespeitoso. Mas enquanto continuarmos fingindo que nada está acontecendo, e enquanto continuarmos chamando de fatalidade o que não é outra coisa senão abuso, as mulheres e as crianças desse país continuarão sendo vítimas de violência naquele que deveria ser o momento mais sagrado da sua existência.
Com quem chorarei meu parto roubado? Quem compreenderá por que eu queria sentir as dores do parto, por que eu queria esperar, por que eu não queria atalhos? Depois das agressões, a solidão.
E então, a mulher se liberta. Se empodera, dizem por aí. Escreve outra história. Recebe ela mesma seu filho nos braços, à luz de velas, em sua própria casa. Se funde com seu bebê, ambos entorpecidos pelo coquetel de hormônios do parto. Grita, chora, gargalha. Tem todo o tempo do mundo para si. E sabe, tem certeza, de que aquela não apenas foi a forma mais bonita, mas a forma mais segura da qual seu filho poderia ter nascido. E se sente poderosa.
Mas não por muito tempo, porque depois... depois ela sairá da caverna e todos a olharão com reprovação. Louca, dirão. No fim, a mulher se vê num beco sem saída. Ou vive na mentira, ou vive na solidão. 
E há esperança? Quero crer que sim. A união daqueles que veem a luz. E a misericórdia pelos que não vêem.

Lia Miranda
Mãe de Emíia, 2 anos, nascida de parto normal hospitalar com intervenções, e de Margarida, 4 meses (em jan/2012), nascida em casa.

4 comentários:

Cíntia Anira disse...

Emocionante Lia!

Dani Garbellini disse...

É tudo isso mesmo, Lia.
Eu tive meu primeiro filho de PD e espero o segundo.E sinto exatamente essa solidão que você menciona.
Busco me cercar de iguais, num gueto sem sentido, mas com todas as outras pessoas, preciso evitar ou tomar um cuidado extremo com o que falo, cuidado para que não sintam-se ofendidos, e mais cuidado ainda para não ser mal tratada.
No trabalho então, fico bolando estratégias de como falar dessa gravidez sem virar "a louca". É mole não!
E esta realidade precisa mudar!
Ótimo texto!

Carla Domingos disse...

Quando eu lia cada palavra me sentia parte dessa historia. Minha obstetra sempre foi meio fria, mas ela era a "melhor" da região, especialista. No parto a mesma coisa. Minha pressão aumentou com 39 semanas, ela disse que fariamos cesaria, sem ao menos mencionar que poderiamos controlar a pressao com medicamentos. Sou farmaceutica, mas nessas horas nao confio em mim e sim na medica. Tamebm disse que fariamos cesaria pois parto normal nao daria por eu nao ter dilatao e o davi estar "alto". Na cesaria tb foi uma tragedia. Enquanto eu estava la chorando,passando mal com a anestesia e tensa, a obstetra e a enfermeira conversavam sobre assuntos secundarios, rindo. Ah, a "doutora" nao quis esperar meu marido chegar, que estava a 20 minutos dali. Disse que tinha compromisso depois (era um sabado a tarde, sera que iria com as amigas as compras?)... no proximo filho vou fazer plano de parto, procurar uma obstetra que seja emotiva, e nao a "melhor"

Sheila Rotth disse...

Gostei muito do texto.
Não to gravida ainda, é só uma questão de tempo, mas tenho pesquisado muito e estou decidida a ter um parto humanizado, mas ao comentar com a minha família (mãe, irmãs e cunhadas) ninguém me apoiou, acham frescura mudar uma coisa que tem dado certo a tanto tempo, afinal a gravidez é algo muito arriscado, melhor mesmo é confiar no médico e fazer uma cesária.
Ainda bem que meu marido está me apoiando, ele já passou por problemas de saúde, e obteve na medicina alternativa a cura, então ele é o primeiro a me incentivar a procurar métodos menos invasivos e mais humanizados pra gestar e ter nosso filho.