27 de janeiro de 2012

A cultura da cesárea e a violência obstétrica

Não basta para a mulher ter formação em saúde para escapar do modelo biomédico de assistência do sistema obstétrico brasileiro. As mulheres, em sua grande maioria, nem mesmo podem ter o conforto de confiar na equipe de saúde para ser assistida humanamente. Digo humanamente, embora muitas nem saibam que, na verdade, gostariam de ser ouvidas e tratadas de maneira humanizada, ou melhor, todas esperam que as coisas assim aconteçam, todavia nem todas entendem a dimensão de um trabalho de parto, de um parto, de um nascimento, de uma amamentação e por isso se esquecem de clarear esses assuntos para si mesmas, pensando que todas as coisas se encaixarão no momento certo. E aquelas que possuem o conhecimento, às vezes não têm o suporte necessário para atender seus anseios e nem a liberdade para protagonizarem suas vidas. As vontades, as necessidades, os receios se perdem em meio à violência obstétrica. As mulheres são silenciadas.

A violência inicia-se logo no momento em que a mulher escolhe a cesariana como modo de ter o seu filho. (Na verdade, já é uma violência pensar que existem duas opções de parto: o normal e a cesariana.) É a violência de exercer poder sobre a natureza, sobre a fisiologia do corpo humano e sobre o próprio bebê. Essa violência é praticada pela futura mãe e apoiada pelo obstetra ou outro profissional envolvido, até mesmo pela família e pelo cônjuge; ou é sugerida pelo médico e aceita pela mulher; ou ainda, é justificada pelo médico, apesar da tristeza da gestante. Essa última, a violência da “escolha” do obstetra gera uma obrigação de escolha pela mulher e causa duas violências: sobre a mulher e sobre o feto. E vai desencadeando cada vez mais violências: é o médico conduzindo a vida da gestante. A mulher agora não sabe de mais nada. E culmina na própria cesárea que é a violência física na mulher e no bebê. A cirurgia violenta o mundo do bebê e o retira brutalmente de seu aconchego. A cesárea não espera seus pulmões amadurecerem. O médico corta o cordão umbilical imediatamente após o nascimento, não deixando fluir o aporte necessário de oxigênio da mãe para o filho. A enfermeira introduz sondas para aspirar o conteúdo gástrico e o nariz, pinga um colírio nos olhos do bebê, encosta por dez segundos no rosto da mãe e some com ele para o berçário, onde ficará com outros bebês tão sozinhos quanto ele: violentamente retirado de dentro da mãe e dos braços dela.

A maioria dos profissionais são “os especialistas”, sempre focados no que os interessam, no que diz respeito ao que eles conhecem, e na função que devem desempenhar como tais, comprovando o que a atual sociedade espera deles. As mulheres confiam e se entregam plenamente aos cuidados médicos sem nem ao menos questioná-los ou questionar-se, sem assumirem a responsabilidade por suas vidas e de seus bebês. Cometem uma violência contra si mesmas. E de violência em violência, acabam traumatizadas com uma experiência que devia libertá-las e torná-las verdadeiras fêmeas. Afinal, tantas mulheres tiveram seus filhos naturalmente por séculos, por que agora seria diferente? E, ainda, os médicos enganam-se a si mesmos e a outrem com mentiras sofisticadas (entende-se por justificativas para intervenções sem cientificidade, obsoletas e/ ou necessidade), temendo a incompetência como profissionais e mantendo-se em suas zonas de conforto.

É sabido que há a divulgação de fatos, relatos e experiências de partos, que gritam a realidade obstétrica brasileira, que sangram da alma de muitas mulheres. Mas por que o universo social a nossa volta não enxerga isso? Porque é difícil desconstruir a relação de poder de quem teoricamente detêm o conhecimento, o chamado embasamento científico. Porque as pessoas sentem-se confortáveis em terceirizar o parto e o nascimento, sendo uma preocupação a menos. Porque as pessoas guardam apenas informações que despertam o seu interesse e estejam de acordo com a maneira como desejam conduzir suas vidas, marcando cesáreas desnecessariamente.

A cesariana é uma violência para o bebê e até mesmo para a mãe, que inocentemente quebra seu vínculo com o próprio filho em nome do receio à dor. A cesárea arranca o bebê bruscamente de dentro do útero, sem aviso prévio, sem esperar que ele esteja preparado. Daí vem o sofrimento respiratório e a má adaptação à vida externa. Ter um parto natural é um ato heróico, onde a mulher dá prioridade para o nascimento do seu filho. Preferir uma cesárea é colocar a vida do filho em risco. É se sentir confortável e poder descansar enquanto o bebê está sufocando. É deixar que separem um do outro por horas, depois de terem estado juntos por tantos meses, obrigando o bebê a ficar sozinho e inseguro. É quebrar o vínculo com o próprio filho. É favorecer acontecimentos tristes, de não-amor e não-segurança para o bebê. É talvez acordar tarde demais para melhorar a experiência de se tornar mãe. É ter uma cicatriz no ventre e na alma.

Simone Menzani Marin

Mãe do Rodrigo, de 1 ano e 8 meses, retirado por cesárea eletiva, por fragilidade minha e neutralidade médica. Enfermeira de formação, teoricamente especialista em Saúde Coletiva (HCFMUSP), pequena militante pela causa obstétrica, futura obstetra se Deus quiser.

1 comentários:

Ana Luisa disse...

Muito bom, posso compartilhar no meu blog?
bjs