O que de mais perfeito um filho
pode desejar ainda dentro do útero? Se ele pudesse dizer para nós, seria algo
assim:
“Que num dia feliz, eu seja
concebido e germine aconchegado no ventre de uma mulher de sorte. Que a notícia
chegue radiante e encha de amor toda a família. Que esta mulher saiba que o
melhor para mim é sua imaginação e alimentação. Que durante o primeiro trimestre
ela cuide muito de toda e qualquer energia que se aproxime dela, pois serei
apenas um embrião, uma poeirinha de luz a se formar. Que nos meses seguintes
ela procure ver o que é bom, ouvir e apreciar coisas belas, pensar sempre o
melhor, curtir cada mudança, amar a mim e a humanidade pela dádiva de a
eternizar.
Que ela não entregue a ninguém a
confiança e fé na vida. Que não fique procurando anomalias, defeitos, doenças,
síndromes, nem deformidades, pois eu seguirei confiante de que sou exatamente como
devo ser. Que nenhum médico me examine, mês a mês, com aparelhos frios e que
minha mãe nunca acredite que me vê melhor na tela de chuvidos das máquinas de
ultrassons do que quando fecha os olhos e inspira minha vida.
Que a cada visita de pré-natal,
ela seja respeitada, encorajada e valorizada pelo imenso prazer de carregar a
vida em movimento. Que se faça nela apenas o necessário para manutenção daquilo
que a natureza já faz com perfeição. Que ela seja sempre ouvida em seu desejo
de parir naturalmente e onde se sentir mais segura.
Que ela procure se informar sobre
como me alimentar da melhor forma possível, assim que eu nascer, para me
receber de braços (e peito) abertos. Que possa contar com o apoio de grandes
amigas, grandes mulheres e de uma família que forme uma rede calorosa de apoio.
Que ela seja amada pelo meu pai,
com toda plenitude. Que desfrute das novas formas de amar através das novas
formas que seu corpo irá tomar, ao longo dos meses e que esse amor chegue
sempre até mim através de uma forma mágica de encanto e certeza de que sou bem
vindo.
Que, finalmente, no dia do meu
nascimento, que ninguém a perturbe! Ela e eu sabemos muito bem o que fazer. Se
ela decidir ter-me em casa, que seja respeitada na decisão, pois sabemos o
quanto é seguro confiar na natureza. E, da mesma forma, se ela resolver ter-me
no hospital, que ela seja encorajada a acreditar em mim e em si mesma. Que a recebam com respeito, deixe-a vestida
como quiser; comer e beber o que quiser; que não maculem seu corpo com
raspagens nem soro na veia, afinal, não estamos doentes.
Que ela possa adotar a posição e
os movimentos que entender mais confortáveis, pois assim poderei caminhar
melhor pelos estreitos mágicos de seu corpo e seguir confiante. Que a
ajudem-na, se for preciso, a lidar com a dor dilacerante que vem da sensação de
partir-se para que ela não precise de anestesia e eu possa continuar meu
percurso com vigor e saúde.
Que não nos deixem a sós, com
estranhos, mas na companhia de quem minha mãe confia e segurando a mão do meu pai.
Que não apressem minha chegada. Eu sei, exatamente, a hora certa de chegar.
Nada de episiotomia, nem manobras violentas, isto a fará achar que nossos
corpos não funcionam bem. Que desliguem as luzes fortes e o ar-condicionado,
pois quero sentir a suavidade de chegar e conhecer o mundo.
E, assim que eu chegar, deixem-me
imediatamente no colo da minha mãe para que eu ouça o coração que me embalou
eternamente. Que não me privem do sagrado sangue que me pertence e que ainda
vem da placenta, deixando meu cordão umbilical pulsar até cessar naturalmente.
Que não façam exames e
verificações invasivas, apenas me observem. Mais importante do que qualquer
procedimento será eu conhecer e abraçar minha mãe. Deixe para me avaliar apenas
me observando, na maioria das vezes apenas isto é o necessário. Que minha mãe
possa me oferecer o seio ainda suada da emoção de me trazer e que eu possa
mamar o tempo que quiser, da maneira que quiser. É meu sagrado alimento.
Que se minha mãe precisar de uma
cirurgia, que tudo seja muito bem explicado para ela e meu pai. Que tudo seja
da mesma maneira respeitosa e digna que seria nascer de parto normal; e que, se
possível, eu vá imediatamente para o colo de quem de direito e comece a
conhecer o seio, e mame, se eu quiser. Que eu possa vir assim ao mundo, na
exata medida que a natureza desenhou pra mim”.
Cariny Baleeiro Candioto, graduada em Direito, servidora pública, praticantes de ioga, mãe e integrantes da Parto do Princípio.
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