1 de dezembro de 2011

O que um bebê pediria?


O que de mais perfeito um filho pode desejar ainda dentro do útero? Se ele pudesse dizer para nós, seria algo assim:
“Que num dia feliz, eu seja concebido e germine aconchegado no ventre de uma mulher de sorte. Que a notícia chegue radiante e encha de amor toda a família. Que esta mulher saiba que o melhor para mim é sua imaginação e alimentação. Que durante o primeiro trimestre ela cuide muito de toda e qualquer energia que se aproxime dela, pois serei apenas um embrião, uma poeirinha de luz a se formar. Que nos meses seguintes ela procure ver o que é bom, ouvir e apreciar coisas belas, pensar sempre o melhor, curtir cada mudança, amar a mim e a humanidade pela dádiva de a eternizar.
Que ela não entregue a ninguém a confiança e fé na vida. Que não fique procurando anomalias, defeitos, doenças, síndromes, nem deformidades, pois eu seguirei confiante de que sou exatamente como devo ser. Que nenhum médico me examine, mês a mês, com aparelhos frios e que minha mãe nunca acredite que me vê melhor na tela de chuvidos das máquinas de ultrassons do que quando fecha os olhos e inspira minha vida.
Que a cada visita de pré-natal, ela seja respeitada, encorajada e valorizada pelo imenso prazer de carregar a vida em movimento. Que se faça nela apenas o necessário para manutenção daquilo que a natureza já faz com perfeição. Que ela seja sempre ouvida em seu desejo de parir naturalmente e onde se sentir mais segura.
Que ela procure se informar sobre como me alimentar da melhor forma possível, assim que eu nascer, para me receber de braços (e peito) abertos. Que possa contar com o apoio de grandes amigas, grandes mulheres e de uma família que forme uma rede calorosa de apoio.
Que ela seja amada pelo meu pai, com toda plenitude. Que desfrute das novas formas de amar através das novas formas que seu corpo irá tomar, ao longo dos meses e que esse amor chegue sempre até mim através de uma forma mágica de encanto e certeza de que sou bem vindo.
Que, finalmente, no dia do meu nascimento, que ninguém a perturbe! Ela e eu sabemos muito bem o que fazer. Se ela decidir ter-me em casa, que seja respeitada na decisão, pois sabemos o quanto é seguro confiar na natureza. E, da mesma forma, se ela resolver ter-me no hospital, que ela seja encorajada a acreditar em mim e em si mesma.  Que a recebam com respeito, deixe-a vestida como quiser; comer e beber o que quiser; que não maculem seu corpo com raspagens nem soro na veia, afinal, não estamos doentes.
Que ela possa adotar a posição e os movimentos que entender mais confortáveis, pois assim poderei caminhar melhor pelos estreitos mágicos de seu corpo e seguir confiante. Que a ajudem-na, se for preciso, a lidar com a dor dilacerante que vem da sensação de partir-se para que ela não precise de anestesia e eu possa continuar meu percurso com vigor e saúde.
Que não nos deixem a sós, com estranhos, mas na companhia de quem minha mãe confia e segurando a mão do meu pai. Que não apressem minha chegada. Eu sei, exatamente, a hora certa de chegar. Nada de episiotomia, nem manobras violentas, isto a fará achar que nossos corpos não funcionam bem. Que desliguem as luzes fortes e o ar-condicionado, pois quero sentir a suavidade de chegar e conhecer o mundo.
E, assim que eu chegar, deixem-me imediatamente no colo da minha mãe para que eu ouça o coração que me embalou eternamente. Que não me privem do sagrado sangue que me pertence e que ainda vem da placenta, deixando meu cordão umbilical pulsar até cessar naturalmente.
Que não façam exames e verificações invasivas, apenas me observem. Mais importante do que qualquer procedimento será eu conhecer e abraçar minha mãe. Deixe para me avaliar apenas me observando, na maioria das vezes apenas isto é o necessário. Que minha mãe possa me oferecer o seio ainda suada da emoção de me trazer e que eu possa mamar o tempo que quiser, da maneira que quiser. É meu sagrado alimento.
Que se minha mãe precisar de uma cirurgia, que tudo seja muito bem explicado para ela e meu pai. Que tudo seja da mesma maneira respeitosa e digna que seria nascer de parto normal; e que, se possível, eu vá imediatamente para o colo de quem de direito e comece a conhecer o seio, e mame, se eu quiser. Que eu possa vir assim ao mundo, na exata medida que a natureza desenhou pra mim”.
Cariny Baleeiro Candioto, graduada em Direito, servidora pública, praticantes de ioga, mãe e integrantes da Parto do Princípio. 

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