17 de dezembro de 2011

Mãe-Girassol

Quando eu estava grávida do meu terceiro filho, vi um termo em um livro que estava lendo e adorei. Falava em Mãe-Girassol que, como a flor, seguia o ventre, fazendo dele seu guia. A medicina, hoje, detesta o imaginário mágico das gestantes e disseca os corpos dos bebês ainda no útero. Cataloga, numera, padroniza, pesa, mede, estica e puxa, palpita, define. Tudo para mostrar ingerência no invisível; para mostrar controle, no incontrolável; para racionalizar o instintivo; masculinizar o feminino. A que pretexto? Ah, sim tranqüilizar a mãe, a família, “ver se está tudo bem com o bebê”.
Lembro-me de uma ecografia que fiz em que o médico, analisando a placenta, fala: “hum, olha que interessante...” e pára por aí. Segue um silêncio, e mais outro. Eu, atônita, adormecida pelo comentário, sequer consegui tecer palavras. Ele encerrou no exame no sinistro silêncio e eu saí com aquela palavra “interessante” calada dentro de mim, no oco do coração de grávida. O que teria sido? O que poderia tê-lo deixado tão interessado por minha placenta? Os médicos parecem adorar deformidades, calamidades, patologias. Devem amar quando encontram uma inédita!
A medicina está tão bem treinada para ver problemas que quando encontra algo perfeito, até se surpreende! As grávidas deveriam seguir confiante em suas barrigas, como uma “mãe-girassol”, voltada ao seu ventre e não aos olhos dos médicos.
É preciso deixar que a vida corra naturalmente, pois vida é assim, natural, livre, solta, não se curva a controles externos. Ocorre que a confiança, hoje, em todo processo do ciclo de vida está tão embotada que faltam gestantes que se entregam verdadeiramente a gestar. Entregam-se, na verdade, ansiosas e perdidas, aos ditames dos que dizem saber mais, e sufocam seus instintos, suas emoções. A maioria não vê a hora de enxergar seu bebê pela tela chuviscada dos aparelhos de ultrassom e ouvir, de uma terceira pessoa, que tudo está bem. Mas, e onde estão aquelas mulheres que sabem, com as entranhas, que tudo está bem? Entregaram-se às praxes médicas que transformam a gravidez e o parto num evento médico, e não num rito feminino. Perdem provavelmente o mais importante mecanismo feminino de crescimento pessoal.
Fica um recado: Teu corpo sabe mais, acredite. Teus sentidos, todos eles, estão comungando da vida que cresce em teu claustro.
Cariny Baleeiro Candioto, graduada em Direito, servidora pública, praticantes de ioga, mãe e integrantes da Parto do Princípio. 

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