17 de dezembro de 2011

Decifra-me ou Devoro-te: Dengue na Gestação


A dengue é um dos principais problemas de saúde pública no mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que entre 50 milhões e 100 milhões de pessoas se infectem anualmente, em mais de 100 países, de todos os continentes, exceto a Europa. Cerca de 550 mil doentes necessitam de hospitalização e 20 mil morrem em consequência da dengue.
No Brasil, as condições socioambientais favoráveis à expansão do Aedes aegypti possibilitaram o avanço da doença desde sua reintrodução, em 1976. Em 2007, foram notificados 481.316 casos de dengue clássica, 1.076 casos de dengue hemorrágica e 121 óbitos, dados da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde. Em 2008, a epidemia explodiu e os casos pipocaram deixando as autoridades de saúde em estado de alerta.
Moro no Rio de Janeiro, fui infectada pela dengue hemorrágica e pude ver bem de perto o perigo da gravidade que a doença representa e além do mais a precariedade do serviço público brasileiro oferecido.
É notório que os profissionais da rede pública são mais bem preparados para atender esse tipo de emergência do que os plantonistas do serviço privado. Atribuo essa afirmação por conta de toda demanda que o hospital público traz consigo e pelo treinamento despendido pela prefeitura com a elaboração de polos de atendimento específico.
Porém o material, o alojamento, espaço físico, enfim as condições de trabalho dos profissionais da área da saúde não dão condições de atendimento digno a quem busca!
Existe pouca informação publicada a respeito dos riscos da dengue para mulheres grávidas. Apesar de muitas epidemias, nenhuma má formação congênita foi verificada depois de surtos da doença. Alguns casos reportados recentemente sugerem que, se a mãe estiver infectada com o vírus da dengue perto do nascimento, a criança poderá nascer infectada também ou adquirir a doença no momento do parto.
Em entrevista concedida durante minha permanência no Posto de Saúde do Recreio dos Bandeirantes a Médica e Infectologista Dra. Bruna Roberta Galvão do Rio de Janeiro esclarece algumas dúvidas sobre a dengue e suas consequências durante a gravidez.
O que é dengue?
Dengue é uma doença aguda, de início abrupto, causada por um vírus da família flaviviridae. Existem pelo menos 68 vírus desta família, sendo que 29 deles podem causar doenças no homem. Entre estes vírus estão o da dengue e o causador da febre amarela. Existem 4 sorotipos do vírus da dengue (DEN 1, DEN 2, DEN 3 e DEN4).
Como a dengue é transmitida?
O vírus da dengue é transmitido por um vetor, um inseto chamado Aedes aegypti. Este mosquito é um tipo de pernilongo com características diferentes do pernilongo comum (Culex). O Aedes tem hábitos diurnos, não consegue voar mais que 200 metros de distância e vive por volta de 45 dias. Neste período de vida pode picar até 300 pessoas. Os ovos do Aedes são muito resistentes e podem persistir no ambiente seco até 400 dias. Se estes ovos tiverem contato com água limpa, poderão se transformar em larvas e em novos mosquitos. Daí a enorme importância de se eliminar os criadouros (água limpa parada). Já o pernilongo comum tem hábitos noturnos e consegue procriar em água suja e poluída. É importante esclarecer que o Aedes só consegue transmitir o vírus da dengue se ele próprio estiver infectado. Ele se torna infectado se picar uma pessoa infectada com o vírus. Entre a picada e o Aedes estar apto a transmitir o vírus decorrem de 7 a 10 dias.
Quais são os sintomas da dengue?
A dengue tem um período de incubação (entre a picada do Aedes e a pessoa adoecer) de 3 a 14 dias, mas geralmente de 4 a 7 dias os sintomas já aparecem. A dengue pode se apresentar de 3 formas diferentes: dengue clássica, dengue hemorrágica e síndrome do choque da dengue. A forma clássica provoca febre alta, dor de cabeça, dor atrás dos olhos, vermelhidão dos olhos, dor muscular, enjôo, podendo também ter “rash cutâneo”, como se fosse uma reação alérgica na pele. A grande preocupação é quando ocorre a dengue hemorrágica, que pode levar a morte. Além dos sintomas já citados, quando a doença está evoluindo para a versão hemorrágica aparecem ainda: sangramento pelo nariz, boca e gengivas, vômitos persistentes, dificuldade respiratória, pulso rápido e fraco, pele pálida, fria e úmida, sonolência, agitação e perda da consciência. A grande maioria dos casos de dengue hemorrágica ocorre nas crianças e pacientes menores de 15 anos de idade.
Como é feito o tratamento da dengue?
Não existe medicamento contra o vírus da dengue. O que fazemos é manter o paciente bem hidratado, em repouso e prescrevemos medicações para diminuir os sintomas da doença.
Quais os riscos de se contrair dengue durante a gravidez?
Os riscos são os mesmos de uma pessoa não-gestante. O Aedes não tem nenhuma “atração” especial pelas grávidas. O problema é que, se uma gestante contrair a dengue, isso poderá implicar em algumas complicações indesejáveis na gestação como entrar em trabalho de parto prematuro, problemas de hemorragia no parto e até óbito fetal. Felizmente não parece existir má formação do feto nas pacientes que adquiriram dengue no início da gestação, apesar de haver estudos que indiquem um risco maior de aborto. As complicações aparecem mais no final de gestação.
O tratamento da doença é o mesmo para as gestantes?
Sim. Valem os mesmos cuidados: hidratação intensa, muito repouso e o uso de medicamentos para aliviar os sintomas. É importante lembrar que as gestantes não devem tomar nenhum remédio que não tenha sido prescrito pelo seu médico.
Como a gestante pode se proteger contra a dengue?
Evitando viajar para áreas onde estejam ocorrendo casos ou epidemia de dengue, usando calça comprida, meia e repelentes, não usando perfume (o mosquito é atraído por perfumes) e principalmente eliminando os possíveis criadouros do mosquito próximos à sua casa, local de trabalho etc. Nunca é demais lembrar: não deixe água parada em garrafas, pneus e bacias; limpe os pratos das plantas com escova e sabão e coloque areia; tampe caixas d´água, vasos sanitários, poços e latas de lixo; lave bebedouros de animais com escova e bucha e troque a água mais vezes na semana.
Se a lactante pegar dengue durante a amamentação há riscos para o bebê?
Não existe nenhum risco de contrair dengue através da amamentação. O recém-nascido deverá ser amamentado, pois receberá da mãe anticorpos para sua proteção.

Gleice Marcondes Ferreira
Doula, Educadora Perinatal, Terapeuta Corporal e facilitadora de Biodanza

0 comentários: