11 de novembro de 2011

O parto, a doula, o obstetra, os palpiteiros de plantão

Dois dias atrás estava sentada no cabeleireiro e escutei duas mulheres conversando. Uma, grávida de 36 semanas, falava sobre a maternidade que havia escolhido, a UTI que tinha ali disponível, e também sobre a médica. Ela estava com medo, de parir, da dor, de todo o processo. A outra não era mãe, mas esposa de obstetra. Entre as tantas coisas que ela disse, estava a frase: "Meu marido é totalmente contra doula. Ele diz que é super perigoso!". Meu senhor dos médicos, será que ouvi direito?

Está bem pessoal, eu mesma não quis a companhia de doula. Mas porque eu não quis. Me preparei de outras maneiras, com ajuda de outras pessoas, de livros, inlcusive. E queria eu e meu marido ali na sala de parto. Sem doula, ponto. Mas sei que esta profissional é de extrema competência. Já escrevi reportagem sobre o assunto, já li, já conversei com doulas. E elas não são um perigo para a humanidade! Elas estão ali para apoiar as parturientes, dar suporte, esclarecer dúvidas e, às vezes, fazer o contraponto de um médico cesarista. Muitas vezes, elas podem trabalhar em conjunto com um médico, a favor do normal. Ou até mesmo, acalentar a mãe que não conseguir a cesárea. Elas não escolhem o parto da mulher grávida. E muito menos realizam parto, a não ser que sejam também parteiras (o que inclui outro tipo de preparo). E se não não parteiras, não têm a responsabilidade do parto para si, pois é o obstetra quem continua no comando. Portanto, elas não têm nada de perigosas.

Achei um absurdo uma mulher que nem passou pela experiência de parir sair falando abobrinha para uma gestante em plena fase de medo do parto. A gravidíssma provavelmente já será convencida à aderir à cesárea, para quê piorar as coisas? Só porque o seu marido, cesarista provavelmente, se sente ameaçado com o fato de uma doula "atrapalhar" seus planos de voltar para a casa mais cedo? Esperei a palpiteira se afastar para dar eu mesma os meus palpites. Mas, olhe lá, eu só relatei a minha experiência, passei confiança para aquela futura mamãe, insegura diante do desconhecido. Sim, eu falei que parto normal é tranquilo, que ela pode tomar anestesia, que ela não vai sofrer. Ela me pareceu mais forte.

O que eu quero dizer com isso? Simples. Fato. Palpite todo mundo dá, mas tem que tomar cuidado com o que se escuta por aí, e muito mais, com o que se fala. Já parou para pensar, amiga-esposa-de-obstetra, que com seu conselho mal dado, essa mãe pode deixar de dar à luz de uma maneira maravilhosa? Que outra mãe, prestes a ter um parto natural com uma doula ao lado, poderia desistir? É, tem que prestar atenção. Eu mesma relatei para essa gestante tudo de ruim que passei na maternidade no início de amamentação, mas com todo o cuidado. Não para assustá-la dizendo que é difícil, mas para orientá-la e mostrar que, com ajuda, tudo se resolve. Espero ter ajudado.

Agora, quem não ajuda, também não atrapalhe, não é isso que dizem? Conheço quem sai repassando emails daqueles que apavoram o mundo: cuidado ao comprar carne, não coma cebola crua porque há uma bactéria que pode matar, gestantes não podem andar descalças nas últimas semanas, ou coisas assim. Esperem aí. Não precisa ser jornalista para saber que é errado passar para os outros aquilo que não têm certeza. Ainda mais se for falar mal de uma profissional cuja única intenção é fazer o bem. Ou será que uma mulher que se dispõe a acordar no meio da madrugada e sair de onde estiver para te apoiar na chegada do seu filho quer te fazer mal? Vai te fazer mal? Posso estar errada, mas acho que só se começarem a criar faculdades porcarias para doulas, assim como se proliferam as de medicina (ou seria carnificina?). Me perdoem os médicos competentes, mas aposto que vocês seriam os primeiros a falar o que eu falei acima. E, vocês, parteiras, aposto que também têm muito a dizer. Mas que falem primeiro as doulas. Afinal, são vocês que podem dizer que tipo de formação têm, o que se propõem a fazer, e o resultado de tudo isso. Vocês são um perigo???

Observação: não tenho nada contra médicos e nem sou militante de doulas e parteiras. Apenas penso que é preciso saber o que se fala. E que, profissional ruim tem em todos os setores. Eu conheço um monte da minha área!

Abraços,

Beatriz Zogaib, jornalista, mãe de Léo, 2 anos e meio, e apaixonada pela maternidade. Você me encontra também em www.maedacabecaaospes.com.br

2 comentários:

Deborah Delage disse...

Interessante... a doula pode ser mesmo muito perigosa no contexto do nascimento... para a o interesse de uma assistência que não está preocupada, em primeiro lugar, com o protagonismo, a segurança e a satisfação da mulher em sua experiência de nascimento/parto!

Deborah Delage disse...

Ah! Da próxima vez que encontrar pela frente alguém que aterrorize contra doulas ou acompanhantes de parto em geral como "perigosas", apresente esta revisão Cochrane como argumento irrefutável dos benefícios: http://apps.who.int/rhl/reviews/langs/CD003766.pdf
Beijos!