21 de novembro de 2011

20 de novembro é Dia da Consciência Negra

Em um primeiro momento, a nossa luta por uma assistência humanizada ao parto normal não tem nada a ver com as causas dos movimentos negros.

Do meu ponto de vista, o que vivemos hoje, no sistema de saúde, é um quadro de sexismo. De forma consciente ou não, vivemos o preconceito contra o sexo feminino. E o sexismo tem origens comuns ao racismo. Ambos nascem da premissa de que o corpo e o ser (ou alma, ou espírito) são duas coisas separadas.
Não sei para vocês, mas essa dualidade, essa oposição entre uma coisa e outra, não me é aceitável. Meu corpo é meu ser ou, como o lema feminista diz: meu corpo é meu território. (Não estou dizendo que não acredito em alma. A questão é não dissociar).
A idéia base da escravização dos negros africanos foi a de que eles não tinham alma. Mesmo quem não acreditasse na moral cristã, os via apenas como corpos a serem explorados. Os negros do Brasil não herdaram as riquezas da Europa, nem as terras da África. Permaneceram aqui, desprovidos de alma – sem sua história, sem sua cultura, sem seu território. Eles resistiram, reconstruindo sua identidade. Até hoje resistem, sem condições igualitárias de vida. De 1888 para cá, uma grande parte dos negros do Brasil continua sem acesso a educação de qualidade, sem saneamento básico, sem saúde pública humanizada, sem acesso a terra e segurança alimentar.
Nós mulheres também fomos privadas de nossas almas, em dado momento histórico. Quando nos devolveram a alma, já nos tinham separado dela. Disseram-nos que as mulheres com sabedoria eram bruxas, e que os médicos é que deveriam conduzir nossos corpos. Mandaram-nos deitar, ficar quietas e fazer força. Disseram-nos que foi Deus quem nos obrigou a parir com dores – não eles, os donos do poder e do saber. Disseram que nosso corpo tinha pecado - não que os desejos deles eram pecaminosos.
Quando nós mulheres nos abraçamos e erguemos nossa voz, nos concederam “liberdade sexual”. Liberdade com algumas condições. Um poder concedido a algumas, e não conquistado por todas. O prazer, o poder, o sucesso, a alegria estão ao alcance de todas... as belas!
Hoje, ainda pequenas, as mulheres abandonam seu corpo para embarcar numa jornada de alienação, caminhando numa estrada que supostamente as levaria a um ideal de corpo, um ideal de vida. Mas os ideais só existem no mundo das idéias. E as mulheres vão ficando longe, longe de quem realmente são. Longe dos seus corpos.
A forma como o parto é conduzido nos nossos hospitais é feito justamente para esses corpos de mulher. Nos colocam lá, deitadas, numa posição de impotência e entrega, para que alguém diga o que fazer. Com soro preso em um braço. Com pernas amarradas em braçadeiras de ferro. Com gente dizendo: não grite. Com uma equipe impessoal no seu momento mais pessoal. Médicos e enfermeiras falando de amigo secreto enquanto mexem nos órgãos genitais femininos.
É só um corpo.
Dos usuários do SUS, 70% são negros e, a grande maioria, mulheres negras. São elas que são submetidas aos parto (a)normais narrados no parágrafo acima. E quantos negros e negras no Brasil podem se formar em Medicina? E quando o conhecimento das parteiras tradicionais será levado em consideração pela Sagrada Medicina?
Enquanto isso, mulheres brancas e de classe média (como eu), pagam plano de saúde para se esquivar de um atendimento como esse. E as mulheres de classe alta pagam clínicas com Be-Bebê. E geralmente quem paga acaba caindo na mão dos médicos cesaristas. Aqueles que no pré-natal dizem: “vamos tentar um parto normal”. E que na hora, argumentam: “você não está tendo dilatação”. Para eles tirar bebê da barriga é profissão, rotina. E mulher e bebê são apenas corpos.
Mas, nós dizemos: corpo é ser. Mulher, tenha posse do corpo, tenha orgulho do seu corpo.
Stella Adriana Zanchett, jornalista, mãe do Otto (3 anos).


2 comentários:

Marcelly Ribeiro disse...

Muito bom o texto Stella. Parabéns!

Beatriz Zogaib disse...

Você escreve muito bem! Preciso dizer mais? Sem comentários...
beijos
Bia
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