21 de outubro de 2011

Mais humana, menos máquina

Um dia, numa loja de revelação de fotos, me pego convencendo a vendedora a tentar o parto normal. Ela estava no quinto mês de gestação e não tinha muita convicção sobre o que queria na hora do nascimento do bebê. Mal tinha informação sobre o assunto. Só medo da dor. E eu perguntando: "Você sabia que o neném que nasce de parto normal tende a ter um sistema imunológico mais eficiente por ter entrado em contato com as bactérias da vagina da mãe?". Ela não sabia. E eu continuava. "E quem nasce de parto normal tem menos chances de ter asma e bronquite...", "E você pode tomar anestesia logo no começo do trabalho de parto, não vai sentir dor". Ela, interessada, dizia: "Puxa, eu não sabia de tudo isso". E passou a querer saber. Pelo menos, foi o que disse e o que demonstrou com aquele olhar de quem quer o melhor para o filho.

Antes de mais nada, eu não sou uma militante do parto natural e nem julgo quem escolhe a cesárea. Também não dou as costas para quem amamenta por pouco tempo ou para quem amamenta por mais de um ano com ajuda de complemento. Não sou daquelas que só compram orgânicos para o filho e nem aquela que dá porcaria atrás de porcaria porque a criança não come direito. Sou sim uma mulher interessada em saber mais sobre tudo aquilo que pode trazer benefícios para minha vida, a vida da minha família e para a sociedade. Uma jornalista que se pergunta o real significado da palavra conscientização, mas que tem certeza de que só através dela é que podemos escolher o que é melhor para cada uma de nós. E uma mãe que se preocupa em oferecer o melhor que pode, mesmo que esse melhor seja comprado em supermercado de vez em quando...

Mas eu tinha que começar meu primeiro texto aqui contando o episódio da revelação de fotos. Porque, para mim, foi uma revelação. Ali, conversando animadamente com uma futura mamãe cheia de dúvidas e inseguranças, passando confiança e informação, eu me vi como alguém que quer fazer mais pelo mundo. Afinal, o que eu ganho em tentar conscientizar uma mulher que eu mal conheço? Acho que faço isso porque não quero ficar sentada no sofá assistindo ao que acontece do lado de fora da minha casa. Eu quero e posso fazer mais. E eu ganho muito com isso, mesmo que não seja materialmente falando.

Por mais que hoje em dia o tempo seja um artigo de luxo e tudo gire em torno de dinheiro, nós podemos fazer coisas que ajudam a humanidade a ser mais humana, menos máquina... E, assim, conseguimos também ser mais humanos, menos máquinas. Isso sem precisar ir até uma instituição de caridade toda a semana ou deixar de trabalhar para ser ativista do Green Peace. Podemos jogar o lixo no lixo, economizar água, ajudar um deficiente visual a atravessar a rua se assim ele desejar, respeitar filas de espera, doar roupas que não usamos mais, escolher sacolas reutilizáveis, falar obrigado, etc e etc. Podemos e devemos também ensinar coisas assim aos nossos pequenos, e até aos pequenos dos outros.

Da mesma forma, podemos trocar experiências e conhecimentos com alguém que precise. E eu não estou falando de alguém menos favorecido socialmente. A falta de informação está em todos os níveis sociais, em todos os lugares, no Palácio do Planalto, nos hospitais, na nossa casa. Só que há pessoas mais dispostas a procurar conhecimento ou a passar o que sabe adiante. Outras que, por inúmeras razões, não buscam saber mais, e outras que, por razões óbvias, preferem omitir o quanto um parto normal pode ser benéfico para a mãe e para o filho... A vendedora me contou o que a maioria das mães conta. “Meu médico ainda não falou sobre o parto, mas ele falou que o neném é grande, que talvez tenha que ser cesárea”.

Escutar isso me motiva a falar mais do que a boca, literalmente, porque muitas vezes eu falo calada, de tanta vontade de falar a respeito de assuntos como esse. Porque sei que pessoas esclarecidas chegam a ser convencidas a aderir à cesariana, sem área de escape. Foi o que aconteceu com uma pediatra neonatal que conheci recentemente, e que chorou ao contar como deixou de ser a protagonista do próprio parto, mesmo sabendo dos benefícios da opção que estava sendo influenciada a descartar.

Por essas e por outras, escreverei aqui todas as sextas-feiras. Não sou a pessoa mais bem informada que conhecem, aposto. Tenho muito o que ler, pesquisar, ouvir. Mas tenho interesse em aprender. Em ajudar. Aqui no blog, na rua, em uma loja, onde for. Um voluntariado autônomo, espontâneo, imediato, natural, transformador. Falando sobre minhas experiências e sobre um monte de absurdos e maravilhas que vejo por aí, pretendo simplesmente, continuar fazendo a minha parte. E você, como faz a sua?

- Muito prazer, sou Beatriz Zogaib, jornalista que abriu mão da realização profissional por enquanto, para me dedicar à maior das realizações, mais conhecida como maternidade. Hoje, sou freelancer, dona de casa e mãe em tempo integral. Aceitei o convite de escrever aqui porque, lendo sobre pais e filhos, eu descobri muitas coisas. Muitas delas, foram outras mães que escreveram!

1 comentários:

Anônimo disse...

letra grande.