21 de novembro de 2010

Opção pela cesariana só deve ser tomada por razões clínicas.

Em Portugal.

Intervenção da Ministra da Saúde na apresentação do Relatório da Comissão para a redução da taxa de cesarianas da região Norte, no Porto

Foi com muito gosto que participei na apresentação pública do Relatório produzido pela Comissão para a Redução da Taxa de Cesarianas da ARS Norte.
Documento este de enorme importância, porque se por um lado, faz o levantamento da realidade no que se refere ao número de cesarianas versus o número de partos naturais, por outro, apresenta um conjunto de propostas que visa a correcção de uma prática clínica que revela desvios preocupantes dos padrões internacionais considerados.
Gostava que ficasse absolutamente claro que o que estivemos a debater, e a tentar corrigir, é uma actuação clínica, ou melhor, uma opção clínica que só deverá e poderá ser com base em critérios rigorosamente clínicos, e nesse contexto, fundamentados na avaliação rigorosa de cada caso clínico, isto é, nas particularidades de cada parto, de cada mulher e de cada bebé.
Portugal é um dos países europeus com maior taxa de cesarianas. Nas maternidades do Serviço Nacional de Saúde, em 2009, a taxa de cesarianas foi de 33,2%, com crescimento de ano para ano.
Este valor revela uma preocupante tendência crescente da opção pela cesariana, em vez do parto natural, pelos profissionais do Serviço Nacional de Saúde.
Esta tendência de crescimento da taxa de cesarianas é, ainda, mais acentuada quando avaliamos a prática nas maternidades dos hospitais privados. Aqui, encontramos serviços que apresentam taxas na ordem dos 80%.
Comparada a realidade dos países da Europa, com excepção da Grécia e da Itália, verificamos que a taxa de cesarianas não ultrapassa os 30% e que são vários os países que apresentam taxas inferiores a 20%.
Estes são valores referência que traduzem o respeito pelas recomendações das sociedades científicas nacionais e internacionais.
Estes organismos científicos definem, de forma objectiva, os critérios clínicos para a prática da cesariana.
Cumprir estas recomendações é a forma de assegurar a saúde das mães e dos bebés, é garantir os menores riscos de saúde para a mãe e para o seu bebé, e só este pode ser o objectivo do SNS.
Ao longo desta sessão de trabalho tivemos a oportunidade de debater os riscos, para as mães e para os recém-nascidos, da opção cesariana quando comparada com o parto natural.
Foram, também, identificados os motivos que levam muitas mulheres a solicitar aos seus médicos a realização da cesariana, um parto cirúrgico, sem que exista um critério clínico.
O medo da dor, a associação a menor risco para o bebé, a rapidez do parto e a moda do agendamento, o nascimento com data e hora marcada, têm motivado o crescimento do número de cesarianas.
Estes argumentos e motivações baseadas na crença e na moda ignoram que a opção pela cesariana envolve riscos acrescidos para a saúde, física e emocional, da mãe e do recém-nascido.
Falamos da menor protecção do bebé às infecções, do risco de problemas respiratórios, para além de um período mais alargado de recuperação da mãe, de não facilitar podendo ficar comprometida da relação mãe-filho nos momentos iniciais.
Esta falta de consciência das famílias, de que uma cesariana é um acto cirúrgico, e que por isso, envolve riscos sérios, exige a implementação de medidas que visem a sensibilização dos profissionais de saúde e das famílias para as vantagens clínicas do parto natural.
O facilitismo, o desconhecimento, o falso sentimento de segurança e, por vezes, a falta de diálogo entre a família e o médico, ou equipa médica, durante o período de gestação, estão na base da opção pela cesariana.
Para combater a falta de informação sobre as vantagens do parto natural está já a ser estudada uma campanha de informação e de sensibilização dirigida à população em geral.
Estamos já a ver algumas das propostas que serão avaliadas e que integram esta campanha informativa.
O crescente número de cesarianas realizadas em Portugal deve merecer a atenção de todos os que estão empenhados na promoção da saúde materno-infantil.
A cesariana envolve riscos adicionais de morbilidade e mortalidade maternas. Por isso, a implementação das medidas para a redução da taxa de cesarianas apresentadas, é uma prioridade que proponho replicar em todo o País para que sejam adoptadas em todas as nossas maternidades.
Inverter a tendência de crescimento do número de cesarianas em Portugal não se faz por decreto. Existem critérios clínicos que devem orientar os profissionais de saúde, critérios esses que devem ser partilhados e explicados aos casais. Não esquecer a importância da avó, mais frequentemente da mãe da mãe.
Só assim é possível mudar comportamentos, quebrar alguns mitos e estimular o diálogo sem receios.
Promover o parto vaginal não é uma medida economicista. A cesariana representa, efectivamente, custos adicionais para o SNS e também para os cidadãos que optam pelos hospitais privados.
Apresentação dos aspectos do financiamento até aqui nos hospitais públicos e nos privados, levantam questões que merecem um estudo aprofundado:

■GDH – e a sua história – anos 80 (Direcção-Geral dos Hospitais) e a grande ênfase aos procedimentos cirúrgicos;
■Parto vaginal com ou sem intervenção;
■Parto/cesariana programada;
■Parto natural.
Proposta da generalização deste processo global ao resto do país implica também um estudo e repensar o modelo de financiamento.
Mas o que é verdadeiramente relevante é que a decisão pela cesariana, quando não existem critérios clínicos, é uma opção de risco para a saúde da mãe e do bebé. Opção que podemos e devemos evitar.
Fonte: http://www.governo.gov.pt/pt/GC18/Governo/Ministerios/MS/Intervencoes/Pages/20101018_MS_Int_Cesarianas.aspx

1 comentários:

Anônimo disse...

Tem piada! A mulher pode optar por interromper a gravidez (que também tem custos para o Estado), mas não pode ter o direito de escolher as vias quer ter, tranquila o seu filho!
Eu tenho pânico de parto normal, sofri muito, e tive de ir para cesariana. Tive duas amigas que sofreram também, não puderam sentar durante 2 semanas, costuradas, cheias de dores e desconfortos, e eu no dia seguinte estava de pé, sem dores, só fiquei no hospital por precaução!