4 de novembro de 2010

Analgesia no trabalho de parto junta serviços do Hospital de Angra.

Não é no Brasil, mas é interessante ver que as pessoas discutem sobre o assunto. Independente de ser ou não esta a opinião da PP...

A reunião intitulada “Reflexões sobre Analgesia no Trabalho de Parto” reuniu os serviços de anestesiologia, obstetrícia e pediatria do Hospital de Santo Espírito de Angra do Heroísmo.
O encontro quis debater e desmistificar novas técnicas e antigas práticas com a presença de especialistas na área. Da iniciativa, fica a garantia da criação de uma consulta sobre analgesia do parto, prática esta presente em perto de 35 por cento dos nascimentos feitos na Terceira.
Implementado em Janeiro de 2008 no Hospital do Santo Espírito de Angra do Heroísmo (HSEAH), a analgesia no trabalho de parto foi o tema principal da reunião, decorrida anteontem à tarde, que juntou o presidente da Sociedade Portuguesa de Anestesiologia, Lucindo Ormonde, o obstetra/professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, Rui Graça, o director do serviço de neonatologia do Hospital de Santa Maria, Carlos Moniz, e os serviços de obstetrícia, anestesiologia e pediatria do HSEAH.
Uma reunião que visou aproximar profissionais, desmistificar novas técnicas com antigas práticas e definir orientações para uma prestação de cuidados que, segundo disse ao jornal “a União”, o médico Rui Graça, tem de ser feito em “dinâmica de equipa: “a mensagem mais importante é que trabalhem todos em conjunto. Só com uma equipa perinatal (com os três serviços acima referidos) é que os resultados, quer para a mãe quer para o feto, serão os melhores”.
Sobretudo, ressalvou o especialista, dada a insularidade que condiciona esta unidade hospitalar: “tendo em conta que é difícil, estando numa ilha, transferir rapidamente utentes, numa situação de risco, tem de ser esta equipa perinatal a resolver esta situação. São profissionais de grande categoria que tem de encetar um entendimento”.
“Há 22 anos que sou defensor intransigente da analgesia, loco regional, de parto”, refere, advogando que a introdução de novas técnicas acaba por ser uma “questão de mentalização” dos profissionais de saúde e de necessidade de troca de experiência entre pares.

Mais diálogo e reuniões
Promovido pelo serviço de anestesiologia do HSEAH, o encontro, segundo disse a sua directora, Luísa Gomes, serviu para juntar as equipas que trabalham com as grávidas e os bebés: “nós precisamos de conversar mais, de dialogar mais e de nos reunir mais para avaliar o que se fez e que se pode fazer, para melhorar os serviços”.
A responsável referiu-se satisfeita com o grau de satisfação, por seu turno, das parturientes que recorreram à epidural: “quando fizemos este trabalho de recolha do grau de satisfação das parturientes, foi para nós muito gratificante. Esse, para nós, anestesistas, é dos dados mais gratificantes. É a recompensa do nosso trabalho”.
Ao longo da reunião, mantida no hospital de Angra, o obstetra Rui Graça defendeu, em ultima análise, que a analgesia deve ser “suficiente para tirar a dor, mas não deve retirar o reflexo do período de expulsão”, factor referenciado pelos obstetras como responsável por prolongar o trabalho de parto e pelo recurso ao parto instrumentalizado, nomeadamente à ventosa.
Unânime foi o reconhecimento de uma fase de “adaptação” por parte de todos os serviços, uma vez que só se implementou a analgesia de parto há cerca de dois anos, primeiramente (até Dezembro de 2009), apenas de segunda a sexta-feira das 8H30 às 24H00 e depois 24 horas por dia, por escassez de recursos.
Actualmente, o HSEAH, EPE dispõe na obstetrícia de seis obstetras e 22 enfermeiras, das quais 8 parteiras, sendo a equipa de anestesiologia constituída por seis anestesistas e nove enfermeiros de anestesia.

Consulta sobre analgesia para grávidas do 3.º trimestre
Várias são as acções que o Hospital de Angra do Heroísmo vai iniciar a curto e médio.
Prazo no que diz respeito à analgesia no trabalho de parto. Entre elas, a criação de uma consulta, dirigidas a grávidas no terceiro trimestre de gestação, com o objectivo de informar e preparar a utente para a analgesia de parto.
Uma forma, explana o serviço, de fazer com que a grávida “possa decidir de forma informada e com tempo se deseja analgesia ou não” e permitindo também fazer “preparativos atempados” relativamente ao caso particular de cada utente.
Outra das medidas vai para a promoção de acções de divulgação e de esclarecimento sobre a analgesia do parto nos centros de saúde, com iniciativas dirigidas quer a grávidas, quer a profissionais de saúde.
O Serviço de Anestesiologia do Hospital do Santo Espírito de Angra do Heroísmo vai manter a realização de um inquérito satisfação relativamente à analgesia de parto, não só imediatamente após o parto, mas realizado semanas após a alta para aferir do impacto das analgesias realizadas, bem como da sua qualidade.
O registo de eventos pós-analgesia de parto será implementado para possibilitar o seguimento e tratamento de eventuais complicações, além de possibilitar a avaliação da qualidade dos actos anestésicos realizados. Um registo que visa, sobretudo, a avaliação de eventos ocorridos nos dias que se seguem após a analgesia de parto e igualmente no internamento.

Inquérito revela satisfação e complicações
Segundo dados os Serviço de Anestesiologia do Hospital de Santo Espírito, entre 7 de Janeiro de 2008 e 30 de Setembro de 2010 foram realizadas 618 analgesias de parto, que representa perto de 35 por cento dos partos realizados na unidade hospitalar de Angra do Heroísmo.
Em 2008, 37,2 por cento dos partos foram realizados com recurso a analgesia, e em 2009 33,2 por cento.
A analgesia de parto no hospital de Angra tem sido usada, em primeira instância, em partos eutócicos, em partos vaginais normais (58 por cento), mas também naqueles que recorreram a ventosa (23 por cento), na cesariana (16 por cento) e nos fórceps (três por cento).
A faixa etária principal das parturientes é sobretudo entre os 25-29 anos, seguindo-se a faixa dos 30-34 anos.

As 39 e as 40 semanas de gestação são as duas situações mais comuns entre as utentes do HSEA.
O estudo avaliou também a informação prestada às parturientes sobre a analgesia de parto, referindo que em 2008 ela era feita sobretudo durante a gravidez e na sala de partos, enquanto que em 2010 houve uma inversão, com a grávidas a serem informadas maioritariamente no período anterior à gravidez.
Antes do início da analgesia de parto, refere o serviço, foi realizado um conjunto de folhetos informativos para as grávidas e criados vários protocolos de actuação referentes à monitorização, fluidoterapia, vias de administração, fármacos utilizados, modos de administração e protocolo para as situações de cefaleias pós-punção da dura-máter.

Complicações da analgesia
Entre as principais complicações detectadas pelo serviço de anestesiologia do HSEAH está a retenção urinária, em que as dificuldades levam à algaliação, devido às alterações de sensibilidade relacionadas com a analgesia por razões obstétricas e que surgem mesmo sem analgesia.
Aqui, o estudo aponta que 10,8 por cento das utentes do hospital tiveram esta consequência; 1,4 teve punção da dura, ou seja, uma picada inadvertida da dura mater; 1,1 por cento teve hipotensão, ou seja, diminuição das tensões arteriais por acção dos anestésicos locais, que o serviço refere terem sido resolúveis com soros e fármacos; 0,8 por cento teve tremores por perda de calor pela área de actuação dos anestésicos e por administração de soros frios; 0,5 por cento teve cefaleias, dores de cabeça durante a analgesia e náuseas e vómitos; e 0,3 por cento teve prurido geralmente causada por acção dos opióides.
No inquérito, realizado imediatamente após o parto, sobre a avaliação da qualidade da analgesia por parte da parturiente, 58 por cento referiu ter sido “muito bom”; 34 por cento “bom”; 7 por cento suficiente; e 1 por cento mau.


Nota da PP: Gostríamos de ouvir mais sobre os efeitos e conseuqências da analegesia para o desenrolar do processo de parto e sobre o recém nascido...

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