16 de setembro de 2010

Cesáreas cresceram quase 79% no Ceará.

A proporção de procedimentos, desde 2007, vem se invertendo e os nascimentos de forma natural, caindo.

A manifestação mais natural da vida, o parto, tem se tornado, cada vez mais, um processo acelerado e sintético. É chegada a era dos partos "industriais": lucrativos, induzidos e rápidos. Para se ter uma ideia, de 1997 a 2008, houve um crescimento de 78,90% de partos cesáreos no Ceará. De acordo com a Agência Nacional de Saúde (ANS), no Brasil, 80% dos partos realizados na rede particular são cesáreos. O dado é considerado alarmante, já que a taxa máxima indicada pela Organização Mundial de Saúde é de 15%.
No Ceará, a realidade não é diferente. A relação dos partos cesáreos e normais tem sido desproporcional. Enquanto o número de partos naturais só tem decrescido, o índice das cirurgias só cresce. Afirmação confirmada em números: em 1997, os nascimentos normais representavam 75,6%, e os cesáreos, 23,4%; já em 2008, a realidade se inverte, com procedimentos cirúrgicos chegando a subir para 42,6% do total.

Pela comodidade de poder marcar data e hora para retirar crianças do ventre materno e colocá-los "no mundo", a cirurgia cesariana tem sido a opção recomendada por muitos obstetras e aceitas por diversas mães.
Nesse processo, uma rede é formada: lucram os anestesistas, os obstetras, a indústria farmacêutica e os hospitais, que rapidamente desafogam leitos para os próximos pacientes, como numa produção em série.
Enquanto um parto cesariano pode durar 40 minutos, um parto normal pode levar até 18 horas ou mais. Porém, o que deveria acontecer somente em casos graves, naturaliza-se como um procedimento rotineiro. Desconsiderando que o risco de mortalidade materna é expressivamente maior no procedimento cirúrgico, uma legião de mulheres deixam de comandar o ato de parir, passando a missão para as mãos dos médicos.
Grávida de 38 semanas, a estudante Renata Costa sentiu-se obrigada a mudar de médico porque o profissional rejeitou a vontade da gestante em realizar o parto de forma natural, mesmo tendo tido uma gestação normal e saúde plena.
"Sempre que eu perguntava, vinham respostas vagas. Percebi que existia uma tentativa de me amedrontar mesmo. O médico veio logo dizendo que não fazia o parto sem a episometria. Tratando como se fosse algo sempre necessário, de fato, obrigatório", disse a estudante. Para o médico articulador da Saúde Reprodutiva da Secretaria de Saúde do Estado (Sesa), Garcia de Sousa Neto, o parto da contemporaneidade pode ser chamado de parto medicamentoso e hospitalar, o que, para ele, é um equívoco. "Impedir o processo natural é uma verdadeira iatrogenia", alerta. Para o obstetra, a cesariana só deveria ser adotada em casos de sofrimento da mãe e ou do feto; hemorragias; desproporção cefalopélvica ou prolapso de cordão. Até mesmo os partos que são tidos como normais, muitas vezes, usam procedimentos padronizados, que não deveriam ser usados obrigatoriamente, como a episiotomia, incisão efetuada na região do períneo. "Só deve ser adotada quando a elasticidade não se desenvolve. É um procedimento que está enraizado, mas existem vários trabalhos mostrando os efeitos adversos, dentre os quais perda da libido e dores. As escolas de saúde ainda usam o procedimento como rotina", condena.

Incentivo
Com a campanha "Parto Normal está no meu Plano", o Ministério da Saúde está incentivando a reversão do quadro crítico de cesáreas brasileiras. No Ceará, algumas políticas estão sendo adotadas para a humani-zação dos partos. De acordo com o represente da Sesa, Garcia Neto, até mesmo o valor pago ao médicos na realização dos partos volta-se como uma forma de incentivo. "Enquanto um parto cesariano custa, em média, de R$ 200 a R$ 300, o normal, R$ 800,00, o que chega a ser uma medida de valorização do parto normal".
Para as mães que desejam realizar o chamado parto ativo, existe em Fortaleza um grupo de apoio à gestação. Com foco no respeito ao tempo de gestar, parir e amamentar, o Ishtar Fortaleza (www.ishtarfortaleza.blogspot.com) realiza encontros gratuitos e abertos ao público no último sábado do mês.

Fonte: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=841743

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