13 de agosto de 2010

Carla Polido: o mundo precisa de mais pessoas como você!

Desbafo da Dra carla no seu blog: http://parirenatural.blogspot.com/2010/07/responsabilidades-e-dependencias.html

Há várias semanas tenho vivido dilemas intensos, tentando resolver aspectos da minha prática profissional.

Todo mundo sabe como conduzo o pré-natal e o parto, todo mundo sabe da minha militância pelo parto natural ativo, da minha participação voluntária no GAPN.
Tenho enfrentado barreiras na administração do convênio e na administração hospitalar e resistência de colegas obstetras da cidade. Aliás, mais do que resistência, há um lobby para "queimar meu filme" na cidade. Os ginecologistas daqui querem meu fígado, com essa minha nova mania de querer fazê-los mudar, pensar diferente sobre o nascimento e os partos. Imaginem, até promovi um encontro científico na cidade, às custas do convênio, para provocar reflexões sobre a forma de assistência ao parto! Foi mesmo muita audácia.
Além das pressões e caras feias e boicotes de colegas e até de profissionais de enfermagem e de recepção da instituição, profissionais não humanistas, enfrento também a pressão da responsabilidade de estar presente em 100% das assistências, para garantir que o processo fisiológico transcorra sem intervenções desnecessárias.
Reduzi meu volume de atendimento ao máximo para garantir menor número de mulheres sob meus cuidados. Se eu reduzir mais, preciso fechar o consultório, pois não fecho o balanço financeiro.
Mas não está sendo suficiente.
Há poucas semanas "abandonei" uma parturiente por estar fora da cidade a trabalho na pós graduação. Era para ser uma tarde fora, acabei tendo que pernoitar longe. Essa moça entrou em trabalho de parto enquanto eu estava a quilômetros de distância e foi muito mal atendida nas suas expectativas. Na ocasião, meu parceiro Rogério também estava indisponível, resolvendo problemas fora de São Carlos.
Minhas justificativas para não estar 100% dos dias à disposição são de que também tenho outra vida, fora da profissional_mas essas justificativas servem para mim, e não para aquele casal cujo parto é o único, naquele momento.
Pouco importa que não tiro férias há dois anos, que não tenho um final de semana livre até o final do ano para viajar com meu marido e filhos, pouco importam todas as vezes que eu realizei a assistência (maioria absoluta), pois quando eu falho em comparecer a uma ocasião em que sou necessária, a coisa degringola.
Eu não posso conviver com esse grau de responsabilidade. Tudo não pode depender assim, só de mim, da minha energia, da minha disposição. A pressão é monstruosa.
Aquele casal que trocou de médico, que me procurou para garantir o parto com respeito, ficou à mercê da medicina tecnocrática, teve que brigar para não fazer uma cesárea desnecessária, provocando stress que desequilibrou o trabalho de parto. Na busca por outro profissional na hora do parto, conseguiram alguém que concordou em "tentar" o parto vaginal, iniciou ocitocina sintética e o parto acabou num fórcipe estressante e muito desapontador. Só porque eu estava em Campinas.
Eu não consigo conviver com isso. Essa pressão está minando minha vontade, minha dedicação à causa.
Em momento de reflexão, penso em abandonar o convênio, forma extrema de reduzir o atendimento. Que talvez seja inviável economicamente. Mas que me parece o caminho a seguir.
O respeito que o profissional deve ter no cuidado à gestante exige que ele tenha tempo, tranquilidade e energia para dispender para cada família. Impossível, em obstetrícia, associar qualidade ao volume de assistência.
Muitas reflexões a fazer.

Nota da PP: Carla, todo movimento de mudança gera dor e sofrimento, antes de trazer o crescimento! Você sabe que está no caminho certo e sabe o quão gratas a você ficarão as mulheres que tiverem a sorte de ter a sua assistência. Então, não desista! Estamos aqui para abraçá-la e renovar a sua energia...

0 comentários: