10 de julho de 2010

Parto como era antigamente.

Daniele Medeiros, 30, trocou o hospital pela sala de casa, a cama pela água, a anestesia e o soro por exercícios, respirações, alongamentos e massagens. Às 2h30min, começou o trabalho de parto. Lá pelas 4 horas, depois de rolar na cama (``não dava mais pra segurar a ansiedade``), Daniele tomou um belo café da manhã, esperou amanhecer e ligou para a equipe que a ajudaria a parir.


O marido e a mãe já estavam ao seu lado. Primeiro chegou a doula, Kelly Brasil, para orientar os exercícios na bola de pilates e a frequência das respirações. Depois, a obstetra. Durante cerca de sete horas, Daniele circulou pelo apartamento, aliviou a dor na lombar com movimentos na bola de pilates, recebeu massagens e vivenciou cada contração. A última hora, ela passou dentro d-água, coberta do umbigo pra baixo. Antes das 10 horas, Rudá nasceu com 50 centímetros e 3,4 quilos. Ficou um instante submerso, subiu e foi direto pro colo da mãe. ``Nem sei quanto tempo passamos juntos ali. Perdi completamente a noção``, conta Daniele. ``Pensava em ter um parto dentro d-água desde mais nova, com o tempo quis que fosse domiciliar. Tenho pavor de hospital, até do cheiro. Pra mim, tem que levar em conta o ambiente. Decidir o que quer fazer, do jeito que quer fazer, é muito especial``, diz Daniele, mãe há cinco meses. Depois de ver vídeos e relatos de parto, o pai de Rudá foi entendendo e embarcando na ideia de ter o filho em casa. Durante a gestação os dois frequentaram as reuniões do Ishtar - Grupo de apoio à gestante e ao parto ativo. ``É uma outra história quando você se prepara. Você tem prazer de estar ali, é outra forma de encarar``, diz Daniele.
A ginecologista e obstetra Zenilda Bruno, diretora da Maternidade-Escola Assis Chateaubriand, diz que é fundamental que o casal se prepare, estude, leia, faça cursos e converse com o obstetra sobre exercícios que favoreçam o parto normal.
No Brasil, poucos médicos encorajam o parto domiciliar. Antes de encontrar uma equipe preparada para fazer o parto em casa, Daniele chegou a ouvir de um obstetra que o parto domiciliar era proibido pelo Conselho Regional de Medicina. ``Isso não existe. Acho que às vezes é mais problema dos médicos até. Eles não querem deitar no chão pra acompanhar uma mãe na banheira, não querem passar horas lá. Não é todo mundo que topa isso``, diz Daniele. Uma segunda obstetra gostou da ideia, mas achava complicado. Um terceiro sugeriu abaixar as luzes do centro cirúrgico, colocar música.
Críticas
Eduardo Borges da Fonseca, presidente da Comissão de Medicina Fetal da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), tem reservas ao parto domiciliar. ``As pessoas utilizam a retórica dos países nórdicos, mas existe uma série de regras lá. Geralmente não é o primeiro filho, o bebê tem um peso x e na esquina de casa fica parada uma ambulância onde é possível até fazer uma cesárea. As pessoas querem importar um modelo de países onde as coisas funcionam com mais seriedade``, pondera.
No caso de Daniele, foi determinante o fato de morar a poucos quarteirões de um hospital de grande porte com maternidade. ``Esse era nosso plano b. A médica fica auscultando o bebê, vendo a frequência cardíaca. Não é loucura de natureba. É planejado``, diz. (Mariana Toniatti)

E-Mais
> O Ishtar acompanhou 12 partos humanizados no primeiro ano de atividades. Só o de Daniele foi em casa. Os outros aconteceram no hospital.
> Na Holanda, 35% dos partos são domiciliares.
> Para ter a presença da obstetra, da enfermeira e da doula, um parto domiciliar custa por volta de R$ 4 mil.
> Na França, Leboyer foi um dos expoentes do movimento de humanização do parto, defendendo uma forma mais amena de se nascer: pouca luz, silêncio, banho do bebê perto da mãe, amamentação precoce. No entanto seu foco era o bebê, não a mulher. Ela permanecia deitada de costas, com as pernas em estribos e o uso da episiotomia era rotina.
PARTO HUMANIZADO
> No parto natural, o obstetra interfere o mínimo possível. A depilação total não é obrigatória e não se faz lavagem estomacal. Em todos os relatos, as mães contam que ir ao banheiro mais de uma vez é um dos ``sintomas`` do trabalho de parto. O corpo se prepara sozinho.
> A prática da episiotomia, o corte feito no períneo antes do parto, também vem sendo abandonada. ``Se tem alguma laceração, costura-se, dá um pontinho necessário. A laceração é superficial``, diz a obstetra Barbara Schwermann.
> A anestesia pode ser substituída por exercícios de alongamento e respiração que aliviam a dor e aceleram o nascimento.
``A dor do parto é necessária, mas pode ser diminuída, tem que se desmistificar isso``, diz Isolda Silveira, enfermeira obstetra que ajudou a implementar o parto humanizado na Meac, em 1998, e ainda hoje trabalha na unidade. O ``balanceio pélvico`` sentada na bola de pilates e no chamado cavalinho facilitam a descida do bebê.
> O parto humanizado é também chamado de parto ativo. O protagonismo da mulher é muito valorizado e incentivado. ``Ela é dona do processo``, resume a enfermeira obstetriz Ruthe Martins. A mulher está consciente, tem liberdade de se movimentar e de escolher a melhor posição para parir.
 
Fonte: http://www.noolhar.com/opovo/cienciaesaude/981058.html

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