16 de julho de 2010

Parteiras na América Latina: obsoletas ou necessárias?

(Prensa Latina) Comadronas, parteiras ou matronas, são algumas das maneiras de nomear na América Latina às mulheres que, de forma empírica e com uma sabedoria ancestral, assistem às mulheres em estado de parto.
Para muitos, com a sorte de contar com atenção médica desde o próprio início da gestação, a sobrevivência delas parece arcaica, algo muito raro, ou coisa de novelas.
No entanto, muitos bebês do mundo ainda nascem com a ajuda destas assistentes, particularmente em zonas rurais e indígenas, onde o parto tradicional é mais freqüente que nas cidades.
Um ofício que sobrevive

Quase a metade dos nascimentos nos países em desenvolvimento acontecem sem a presença de um agente obstétrico capacitado, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).
E é que pelo difícil e escasso acesso aos serviços de saúde reprodutiva de amplos setores populacionais desfavorecidos ou marginados, que a parteira se transforma praticamente na única opção.
Lamentavelmente, são poucas as que contam com os recursos materiais e conhecimentos necessários para assumir este delicado ofício.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que no planeta diariamente morrem ao redor de mil 500 mulheres devido a complicações da gravidez e no parto e 99 por cento das mortes maternas registradas correspondem aos países subdesenvolvidos.
A maioria dessas mortes - previsíveis- relaciona-se com a atenção não profissional na hora do parto.
No mundo, aproximadamente 80 por cento das mortes maternas são provocadas por hemorragias intensas, infecções e transtornos hipertensivos da gravidez (geralmente a eclampsia).
Também estão entre as complicações mais graves o parto obstruído e anomalias derivadas dos abortos realizados em condições perigosas.
Quando se apresentam casos desse tipo as parteiras tradicionais contam com poucas ferramentas e quase nada podem fazer para salvar a vida da mãe.
É por isso que as diferentes organizações representativas das parteiras pedem aos governos que aumentem os investimentos para capacitação e que lhes dêem acesso aos recursos que façam seu trabalho mais seguro.
Porque quando estão em condições de pôr em prática sua experiência e sabedoria durante a gravidez, o parto e o pós-parto, ajudam a evitar até 90 por cento das mortes maternas.
Essas mulheres, de origem humilde em sua maioria, apenas contam com uns poucos meios para ajudar no nascimento de uma criança.
Geralmente, cada uma carrega uma bolsa de materiais, cujo conteúdo varia dependendo da zona na qual tenha aprendido a complicada tarefa de trazer um novo bebê ao mundo.
Pinças, panos limpos, ervas para infusões, báscula, fita métrica, e outros objetos para cortar o cordão umbilical, bem como um livro de registro para anotar os dados do recém nascido, estão entre os úteis próprios portados por estas mulheres para seu trabalho.
Ainda que para elas seja de grande valor receber ao bebê com suas próprias mãos, aos utensílios tradicionais foram acrescentadas luvas, devido a proliferação do vírus da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (HIV-AIDS).
Também utilizam diversos métodos para aliviar as dores, diminuir as hemorragias, bem como para conseguir que o bebê mude de posição quando não está de forma correta no canal do parto.
Em muitos casos empregam compostos ou infusões de diferentes ervas cujo uso conhecem pelo legado de suas mães e avós.
Assim que nasce a criança, utilizam panos ou algodão para limpá-la e a colocam junto ao peito da mãe para que seja amamentada e o útero se contraia o mais rápido possível.
Usualmente conversam de maneira carinhosa com a mãe para ajudá-la para que o momento seja mais feliz e menos dolorido, inclusive pedem aos seus familiares para que também a apoiem,
É toda uma arte que permite, além de tudo, prevenir algumas doenças da mulher e da criança com métodos naturais.
Usualmente, elas estão pendentes das etapas de reprodução da mulher, do processo de gestação e da gravidez.
Ademais, com diferentes rituais, segundo a comunidade em que desempenhem suas funções, oferecem seus cuidados diante de fenômenos astronômicos como os eclipses ou o mau tempo.
No México, por exemplo, as parteiras tradicionais nahuas da Sierra de Puebla costumam "ler" o cordão umbilical para prever qual será o destino da criança e se sua progenitora terá outros filhos.
O acervo desta cultura sugere que a observação da placenta pode revelar quão distante estariam futuros nascimentos, segundo a antropóloga Lourdes Báez Cubero.
Após esse ritual, o cordão e a placenta são enterrados; se é menina sepulta-se dentro da casa para que ao crescer seja uma mulher do lar; se é menino, na plantação ( milpa ou semeado) ou pendura-se em uma árvore, para que seja um bom agricultor, descreve Báez.
É urgente reforçar os programas maternos
É certo que as parteiras continuam sendo necessárias nos tempos atuais, quando a cobertura médica não chega a todos por igual, em especial em zonas remotas onde há muito poucos profissionais e altos níveis de pobreza.
Um amplo setor da população feminina na América Latina não tem acesso aos centros sanitários ou não pode pagar o custo do transporte ou dos serviços de saúde.
No entanto, quando se garante às grávidas a disponibilidade de serviços de saúde especializados, diminuem os índices de mortalidade materno-infantil.
O ideal seria que todas as futuras mães e gestantes contassem com programas de proteção sanitária completa nessa etapa de sua vida.
Com isso, a gestante pode chegar ao parto em ótimas condições e teria à sua disposição os meios adequados no caso de complicações.
E é que existe, insistimos, uma relação direta entre o cumprimento de programas de controle pré-natal para as grávidas e atenção especializada do parto e a diminuição da mortalidade materna e infantil.
De fato, a impossibilidade da atenção materna por pessoal qualificado, além de provocar que centenas de milhares de mulheres morram a cada ano, conduz a que três milhões de recém nascidos não sobrevivam depois de sua primeira semana de vida.
Entretanto, por cada trágica morte de uma mulher, há outras 20 mulheres que padecem doenças graves ou crônicas, ou deficiências, como a fístula obstétrica por causa de um parto mal assistido.
Em nosso continente, durante os anos 1990 e 2007 reduziu-se em aproximadamente 25 por cento o índice da morte materna.
No entanto os progressos na redução desse flagelo são mínimos, bem longe do 75 por cento fixado com o compromisso assumido por 189 estados, membros das Nações Unidas, ao assinar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.

(*) A autora é jornalista da Redação Sul da Prensa Latina.


Bom  mesmo é capacitar as parteiras!

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