10 de junho de 2010

Mães já optam pelo parto humanizado.

A luta pela vida começa no parto. Literalmente. De um lado, a ocitocina, hormônio que estimula a expulsão do bebê, confronta a adrenalina, hormônio do medo e da “fuga”. Se o primeiro prevalece, o parto é tranquilo. O estresse da adrenalina, por sua vez, atrapalha, prepara os músculos para o perigo e torna tudo difícil. Esse processo ajuda a entender a importância do parto natural e humanizado, que vem perdendo espaço na “era da cesárea”.
O Ministério da Saúde preconiza que entre 10% e 15% dos partos tenham algum procedimento cirúrgico. Mas o que se vê na rede privada, principalmente, é uma maioria de 90% em cesáreas. A assistência humanizada busca dar segurança e conforto à grávida na hora de ter o bebê, e estimular o parto via vaginal. A paz e a tranquilidade reinam no Hospital da Mulher e Maternidade Professor Leide Morais.
Cada uma das 16 suítes se transformam em um verdadeiro “ninho” temporário de cada família. O nome do bebê e da mãe ficam na porta, para que todos sejam chamados pelo nome. “É preciso bater antes de entrar”, explica Edilza Pinheiro, diretora do Hospital da Mulher e Maternidade Prof. Leide Morais. Tudo se passa no quarto: pré-parto, nascimento e a recuperação.
O modelo previne ainda que o recém-nascido seja trocado ou raptado dentro da maternidade, medo de Maria Jerônimo, 23, que teve a segunda filha na unidade. “Tinha o maior medo que trocassem com outro bebê, mas aqui não tem como”. Isso porque em nenhum momento o bebê sai de perto da mãe, e deixa a unidade já registrado em cartório. “Temos uma pessoa treinada para fazer esse procedimento no Hospital”, diz Edilza.
Acolhimento é palavra essencial no vocabulário da equipe de saúde humanizada. Virgílio Rodrigues e a mulher Maria das Dores ganharam a pequena Maria Fernanda na terça-feira. O pai acompanhou tudo de perto, e se surpreendeu com o carinho recebido no Hospital. “Não esperava que fosse assim”. Edilza Pinheiro defende que o parto humanizado resgata a postura ética dos profissionais. “Eles precisam ser mais sensíveis”, diz.
Para ela, nascer é um ato biológico como dormir, e a grávida deve ter autonomia sobre ele. A Maternidade segue os dez passos da Política Nacional de Humanização do Parto e Nascimento, do MS, onde o programa recebeu o nome de “Bem nascer, eu acolho a vida”. Privacidade, aleitamento ainda na primeira hora de vida e direito a acompanhante no processo de nascimento do bebê até a alta são alguns desses itens.
Dos cerca de 12 partos que acontecem diariamente, nunca se registrou óbito. “Não é preciso de muita tecnologia para se conseguir oferecer essa qualidade à grávida. Isso parte basicamente do recurso humano disponível. Da equipe que faz com que ela se sinta apoiada”, diz a coordenadora de Enfermagem do Hospital, Nívea Jerônimo. “Assim, ela exerce sua cidadania, torna-se protagonista da ação de parir, que não é papel do médico, do enfermeiro nem do técnico”.
O clima é tão familiar que muitas das mães retornam mais tarde com o bebê. “A grávida se sente emponderada, ou seja, capaz de atuar ativamente, não é mera expectadora do processo, ela entende o que está acontecendo” , acrescenta.
“A mulher não pensa na gestação”
Enxoval e pré-natal são o ideal da maioria das gestantes que se preparam para a chegada do bebê. Na opinião da fonoaudióloga Maria do Rosário Bezerra, os itens não são suficientes para que tudo ocorra bem. A correria do dia-a-dia interfere na vida da gestante, que não engravida “psicologicamente”.
“A mulher engravida para procriar mas nem sempre se doa a esse momento, em um curso de gestante, por exemplo. Hoje só se sabe que ela está grávida porque tem a barriga, mas a rotina é a mesma e ela não pensa na gestação em si”, comenta. Para Maria do Rosário, é preciso desmistificar a cultura de que o parto é tratado como doença.
“Será que 90% das mulheres da rede privada têm dificuldade para parir?”, reflete. A enfermeira Nívea Jerônimo ressalta a questão econômica que permeia o crescimento das cesáreas. “É mais fácil também para o médico agendar a hora em que o bebê vai nascer. Assim, ele não precisa esperar, pode agendar dez por dia”, critica.
O projeto “Bem Nascido, eu acolho a vida” tem ainda o objetivo de fazer com que a mulher redescubra sua feminilidade. Segundo Rosário, o ato de parir é um rito de passagem para a nova função de mãe, que deve ser exercida com autonomia. As especialistas acreditam que quanto mais a filosofia do parto humanizado é resgatada, mais bebês terão a chance de nascer em partos normais.
“A cesárea é um ato médico, mas o parto vaginal é fisiológico. A mãe não precisou de ajuda para engravidar, e o parto é o término da relação sexual de amor e prazer”, diz a enfermeira Nívea Jerônimo. Edilza Pinheiro, que é ginecologista e obstetra, lembra que o parto foi transferido ao âmbito residencial para o hospital para proporcionar uma atenção adequada à mulher, o que não significa a intervenção cirúrgica, “a menos que seja necessária”.
Grávidas têm medo de serem mal atendidas
A simples transferência da gestante em trabalho de parto de uma unidade de saúde para outra sem alguém para acompanhá-la pode gerar uma angústia que atrapalha o processo de parir. Um dos maiores medos da grávida é chegar em um local desconhecido e ser mal atendida, faltar vaga. “Se isso acontece, a gestante não se abre para parir, produz pouca ocitocina”, diz Edilza Pinheiro.
Se assustada, o corpo produz adrenalina, que pode desencadear um processo de não parto e até de morte. Nesse contexto, o acompanhante é um fator essencial para um parto tranquilo. “É alguém que vai ajudá-la a ficar mais relaxada”. O ideal é que esse acompanhante seja escolhido no início da gravidez e acompanhe a grávida durante o pré-natal, consultas e visita à maternidade.
As visitas abertas são outra proposta do projeto “Bem Nascer eu acolho a vida”, e ajuda a grávida a se familiarizar com a unidade, sendo realizada a partir dos sete meses de gestação. Ela é promovida pelas equipes de PSF (Programa Saúde da Família), que realizam o pré-natal na rede de atenção básica.
“Isso faz com que ela se sinta acolhida, como se ela tivesse entrando na casa dela”, diz Edilza. Mesmo quando o pré-natal não foi realizado, como é o caso de muitas gestante que chegam do interior do Estado, a assistência é humanizada. “É mais difícil mas mesmo na hora é melhor do que nada”.
Quando acolhida, a equipe orienta a grávida como utilizar os equipamentos que vão ajudar no parto, que é outro diferencial do parto humanizado na unidade. Além da cama em várias, uma espécie de “cavalinho”, e uma bola estão disponíveis. “A grávida é livre para escolher a melhor posição para ter o bebê, seja sentada, em pé, de quatro ou de cócoras”.
Doulas
O acompanhante não é o único que ajuda na hora do parto. As “doulas” também participam de forma ativa no processo. Dentro da humanização do serviço, a doula presta também suporte emocional e psicológico, carregado de alguma competência técnica adquirida por experiência ou um treinamento específico para a função.
“Doula significa mulher que serve,ou seja, fica à disposição de quem está parindo para dar água para abanar, tirar o suor, e a priori, pode ser qualquer pessoa, seja um profissional do hospital ou alguém da comunidade”, explica Edilza Pinheiro. Uma das metas deste ano é que o serviço seja ampliado com as chamadas “doulas comunitárias”.
“Ao longo do ano buscamos inserir cada vez mais a comunidade, com um treinamento, em que as candidatas vão receber orientação sobre a fisiologia da gravidez, como acolhe o parto e como ajudar”.

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