13 de junho de 2010

Cesárea X Parto normal

A cesárea era uma cirurgia feita em último caso, apenas em situações de risco para a mãe ou para o bebê, geralmente detectadas durante o trabalho de parto. O pós-operatório era dolorido e as mulheres, claro, preferiam o parto normal. Mas hoje a cesárea é segura, os remédios minimizam muito os incômodos do pós-parto e ela acabou virando o corriqueiro. O normal parece não ser mais o parto normal. ``A mulher brasileira aprendeu a querer cesárea. É cultural. Enquanto a inglesa e a holandesa brigam pra ter o parto normal, a brasileira vai atrás da cesárea``, diz Eduardo Borges da Fonseca, presidente da Comissão de Medicina Fetal da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).
A Organização Mundial da Saúde recomenda que o número de cesáreas não ultrapasse 25% dos partos. Na rede privada, elas chegam a 90%. No Sistema Único de Saúde, caem para 40%. O medo do parto está associado à dor, a cesárea seria a solução para um parto menos sofrido. ``Quando a mulher pensa na cesárea está pensando na anestesia, mas o parto normal também pode ser feito sem dor``, lembra Eduardo. No parto humanizado ela é dispensada, mas a mãe pode receber anestesia no parto normal.
A cultura da cesárea surgiu como reflexo da estrutura da rede de saúde no Brasil. Na Europa, o médico que faz o parto não é o que acompanhou a mãe no pré-natal, é o obstetra do plantão. Enquanto no Brasil isso é um absurdo para quase todas as gestantes, lá é o normal porque a maioria usa o serviço público.
``Esse médico do plantão não tem pressa. Ele tem disponibilidade para passar dez horas ali. Como aqui a realidade é que os médicos têm que acumular plantões e consultas de convênio, fatalmente o obstetra vai sugestionar a cesárea. Ele não tem tempo pro normal, não tem estrutura``, diz o obstetra Homero Carvalho. ``Do mesmo jeito que a culpa dos problemas na educação não é dos professores, a proliferação de cesáreas não e culpa dos médicos, existe um status quo``, diz Eduardo Fonseca.
Ele lembra que muitas vezes é a paciente que chega pedindo a cesárea. ``Como é cômodo pro profissional, rapidamente ele cede``. Muitas justificativas para o agendamento de cesáreas não impedem o parto normal. Não é verdade, por exemplo, que se a mulher tiver o primeiro filho de cesariana, obrigatoriamente terá os outros da mesma forma.
Quem acaba se prejudicando com tantas cesáreas são os bebês. O parto normal é mais saudável para eles. Querendo ou não, o nascimento está sendo antecipado quando não espera pelo início do trabalho de parto.
Não à toa, é cada vez mais comum que o bebê fique uma ou duas horas no berçário recebendo oxigênio ou calor. ``A mãe nem vê, está no centro cirúrgico terminando a cesárea e bebê está no berçário. Depois entregam ele bonitinho. Não aconteceu muita coisa, o bebê não sofreu, mas precisou de intervenção, de oxigênio, nasceu com depressão respiratória``, diz a obstetra Barbara Schewaumann.
Passando pelo canal vaginal, o bebê é espremido e expele naturalmente o líquido amniótico que deglutiu no útero da mãe. O processo é mais eficaz que a aspiração artificial feita depois da cesárea. Para a mãe, o parto natural também e vantajoso. A cirurgia da cesárea aumenta o risco de infecção e de tromboembolismo. ``Se as mulheres soubessem o risco que estão correndo, não fariam tanta questão``, alerta Zenilda Bruno, diretora da Maternidade Escola Assis Chateaubriand. A mortalidade materna está mais associada com a cesárea do que com parto normal. (Mariana Toniatti)

INDICAÇÕES PARA CESÁREAS: O QUE É, O QUE NÃO É E O QUE AINDA SE DISCUTE

1. Circular de cordão, uma, duas ou três ``voltas``.
> O bebê só desce pelo canal vaginal se não se sentir sufocado. Se ele sente que vai ser estrangulado pelo cordão, volta e fica quietinho no útero. Aí sim é preciso fazer a cesárea. Se ele sente que dá para descer, que o cordão é comprido o suficiente, vai sair normalmente. Assim que estiver fora, o médico faz uma manobra pra desenlaçá-lo.
2. Bebê que não encaixa antes do trabalho de parto
> Quando a primeira coisa que aparece do lado de fora é a cabeça do bebê, tem-se 100% de certeza que o resto do corpo vai conseguir atravessar o canal vaginal. Quando o bebê está numa posição diferente, a maioria dos obstetras prefere partir para a cesárea, mas os bebês podem nascer de parto normal colocando os pés para fora da barriga primeiro. ``Se for o segundo filho e o bebê tiver até 3,5 quilos, ele sai de parto normal``, explica a obstetra Barbara Schewaumann.
3. Diagnóstico de desproporção céfalo-pélvica
> A cabeça do bebê tem que ser proporcional à bacia da mãe. Muitos médicos diagnosticam a ``bacia estreita`` antes do trabalho de parto, mas o ideal é esperar para decidir pela cesárea durante o trabalho de parto. Se a desproporção entre cabeça e pélvis da mãe se confirmar, é um impeditivo absoluto de parto normal.
4. Bebê grande demais
> A maior parte dos médicos desaconselha parto normal para bebês com mais de 4 quilos, mas antes dos anos 60, isso não era impeditivo. Para casos de bebê grande, a força da gravidade em posições diferentes da horizontal, ajuda ainda mais.
5. Cesárea anterior
> Dizer que depois de uma cesárea, todos os partos serão cesárea é mito. O argumento utilizado é o risco do útero romper no local da cicatrização do primeiro corte, mas as chances disso acontecer não aumentam depois de uma primeira cesárea. Há médicos que consideram um impeditivo para o parto normal duas cesáreas prévias. Aí sim o tecido morto teria mais chances de romper.
6. Cardiopatia
> O melhor parto para mulheres com problemas cardíacos é o parto normal com o uso de fórceps para acelerar o processo. A má fama do passado não se justifica mais. A técnica do fórceps foi aperfeiçoada.
7. A bolsa rompeu, corre para a cesárea
> A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) orienta que o médico espere 24 horas antes de recorrer à cesárea depois da bolsa romper. ``Não tem razão para o médico correr como um louco pro centro cirúrgico``, diz a obstetra Barbara Schewaumann.
8. O tempo limite de maturação do feto são 42 semanas
> O bebê ``está passando do tempo`` depois de 42 semanas de gestação. Tem médico encurtando esse período em duas semanas.
9. Parto normal deixa a mulher ``frouxa``
> O tecido rugoso da vagina é feito para se estender e voltar ao normal. A cabeça da criança não vai ficar três horas ali. Ela vai se abrir por um curto período de tempo e depois vai voltar ao normal.

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