12 de abril de 2010

Grávidas erram ao escolher maternidade como se fosse hotel, dizem especialistas

O R7 consultou renomados médicos obstetras para orientar as futuras mamães sobre o que elas devem levar em conta na hora de escolher a maternidade onde terá seu bebê. Entre as dúvidas mais comuns, está o dilema de escolher uma instituição que ofereça tecnologia de ponta e um possível tratamento mais técnico, ou optar por outra mais humanizada, sem necessariamente oferecer todos os recursos tecnológicos. 

Para as gestantes que moram em grandes cidades, por exemplo, onde a oferta de maternidades é imensa, vale primeiro consultar um obstetra para pedir indicações. Ele saberá das necessidades da gestante, ao passo que terá ciência sobre quais hospitais o plano de saúde de sua paciente faz cobertura para, então, chegar a uma alternativa viável. Só para constar: para quem pretende pagar por um parto, uma cesariana pode custar alguns mil reais em hospitais considerados médios e mais de R$ 10 mil nos de ponta.

Limpeza é fundamental

Dadas algumas opções, o segundo passo da gestante é visitar o hospital. De acordo com o ginecologista e obstetra Alexandre Pupo Nogueira, do hospital Sírio-Libanês, já na maternidade a gestante tem que observar primeiro a limpeza do hospital. 

- Independente de estar dentro de áreas restritas ou na área onde a população pode passar, tem que haver um padrão de limpeza. Um ambiente absolutamente limpo diminui o risco de infecção hospitalar.   Repare, portanto, se o chão está limpo, se há infiltrações nas paredes ou sinais de ferrugem em maçanetas e equipamentos. Tudo isso é um perigo para a saúde de mãe e do recém-nascido, pois ambos estão em período de recuperação pós-parto. Observe também se as vestimentas dos médicos e enfermeiros estão devidamente limpas, sem manchas, se os cabelos estão curtos ou presos e as unhas aparadas e limpas. Caso contrário, também são foco de infecções. Até mesmo o ar-condicionado pode ser um vilão. Se não estiver limpo, acumula micro-organismos que podem causar pneumonia no recém-nascido ou infecção na cicatrização cirúrgica na mulher que fez cesariana.   Ainda durante a visita é possível também reparar no comportamento de médicos e enfermeiros. Veja se são atenciosos com as mães e com os bebês. A tendência é que quanto mais solícitos, maior a chance de haver uma filosofia voltada à humanização do parto.   Humanização

A maternidade Santa Marcelina de Itaquera, eleita a melhor do SUS (Sistema Único de Saúde) em São Paulo, tem praticamente todo o seu trabalho voltado à humanização do parto, o que a fez se transformar em referência. Segundo o ginecologista e obstetra Marcos Ymayo, coordenador da Saúde da Mulher do hospital da maternidade, a internação no hospital visa a preparar a mulher para o parto natural.

Para isso, seu corpo clínico é composto por médicos e enfermeiras obstetras que estimulam a gestante a ficar com um acompanhante durante todo o processo do parto, a fazer fisioterapia e até tomar duchas de água morna na lombar para estimular o nascimento do bebê e diminuir as dores das contrações. A taxa de cesarianas do hospital fica em torno de 21%, índice aceitável pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Acima de 25% é considerada alta para hospitais públicos e 35% nos privado

O contato quase irrestrito da mãe com o bebê, em vez de deixá-lo muito tempo no berçário, é um outro ponto da humanização. O obstetra Eduardo Cordioli, presidente da Comissão de Urgência em Obstetrícia da Febrasgo (Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia), recomenda verificar se a maternidade permite isso e ainda o acompanhamento da mãe até na UTI neonatal, em casos de bebês prematuros.

- Verifique se há restrição de horário em que se pode acompanhar o bebê. O ideal é que não haja essa restrição, e que a visita de familiares, embora controlada, seja permitida, até dos irmãos pequenos.

Cordioli sugere ainda observar se a maternidade estimula a amamentação e se conta com instalações conhecidas como Labor Delivery Room, ou seja, quartos desenhados para nascimento natural, mais espaçosos, com equipamentos que estimulem o parto normal sem a necessidade de anestesia, como banheira, bola suíça, cadeira de parto, e espaço para familiares acompanharem o trabalho de parto,  podendo esta estrutura ser revertida rapidamente em caso de necessidade de realizar anestesia e procedimentos mais complexos.

- Veja se há um grupo de apoio à amamentação, além de contar com um lactário que possa auxiliá-la caso o recém-nascido tenha dificuldade na amamentação.

Para Marcos Ymayo, no entanto, o mais importante na hora do parto é a maternidade ter um corpo clínico composto por médicos e enfermeiros capazes de salvar a vida da mãe e do bebê em casos de complicações. Isso porque, segundo ele, as possíveis complicações na hora do parto são geralmente resolvidas ainda na mesa de cirurgia por esta equipemagem.

- A primeira coisa que a gestante tem que ter acesso é a um atendimento digno e com segurança e para isso nem sempre precisa ter tecnologia. O que eu vejo no Brasil é que a população confunde a assistência com serviços de hotelaria, mas isso não é referência. O que a gestante precisa é ser atendida com dignidade e estar bem orientada sobre sua gestação e ter poder de decisão de como será o parto.

Tecnologia

Já para Cordioli é fundamental a maternidade apresentar todo um aparato tecnológico e dormitórios confortáveis para a mãe e o bebê, pois, segundo ele, "equipamentos modernos e sofisticados auxiliam o médico e aumentam a segurança".

- Existem alguns equipamentos para situações específicas que só grandes centros possuem, como ventiladores neonatais de alta frequência, incubadora que se transformam em berço aquecido, testes rápidos para se diagnosticar eventos clínicos, etc. Perguntar ao seu obstetra ou seu pediatra se a maternidade desejada conta com todos os recursos tecnológicos disponíveis é muito importante.   Para o obstetra da Febrasgo também é fundamental a gestante saber se a estrutura da maternidade está pronta para um atendimento de alta complexidade, contando com UTI para adulto e para o recém-nascido (UTI neonatal). Ter um setor de medicina fetal é imprescindível, além de banco de sangue 24 horas por dia, assim como laboratório clínico e um setor de medicina de imagem, com tomografia computadorizada, ressonância magnética e afins, para evitar deslocamento para outra unidade em casos de emergência. 

Para o obstetra Alexandre Pupo Nogueira, vale também questionar a maternidade sobre a taxa de infecção hospitalar. Seu obstetra pode facilmente conseguir este número.

Já para Marcos Yamayo, instituição que não possui UTI neonatal, é possível fazer um parto seguro mesmo sem esse recurso. Segundo ele, o que tem de ser considerado é se a gestação é de alto ou baixo risco.

- Se o risco for baixo não precisa de um centro de ponta, mas um que possa tratar das complicações mais comuns. Se não tiver UTI neonatal no local, que tenha uma referência para encaminhar. A gestante precisa é ter uma garantia de vaga nesta UTI para que a criança seja cuidada e não fique com nenhuma sequela.


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