21 de abril de 2010

Doadoras de amor são homenageadas no Hospital Sofia Feldman

Num quarto à meia luz, a música suave soa como palavras de coragem sussurradas nos ouvidos de quem está prestes a descobrir o que é ser mãe. A água quente e o perfume do escalda-pés têm o cheiro e o perfume do abraço acolhedor recebido num momento em que alegria e medo se confundem. As flores do campo enfeitando o cômodo são tão belas quanto a tarefa desempenhada por voluntárias da rede municipal de saúde que levam seu colo, ombro e coração a gestantes em trabalho de parto. Sábado foi a vez das doulas comunitárias de Belo Horizonte, mulheres que dão suporte emocional e físico para grávidas na hora do nascimento do bebê, receberem carinho e atenção doados diariamente por elas.

Numa sessão de escalda-pés, prática aplicada em parturientes, cerca de 50 doulas puderam lavar a alma e recarregar as energias. A homenagem ocorreu durante o 3º Encontro Municipal de Doulas Comunitárias do Sistema Único de Saúde de BH, no Hospital Sofia Feldman, no Bairro Tupi, na Região Norte da capital, primeira instituição a incluir as voluntárias na equipe de atenção à gestante. A data, às vésperas do Dia Internacional da Mulher, comemorado hoje, não foi aleatória. Com postura firme e generosa, além de humanizar o parto, essas doadoras de amor despertam a força da mulher.

“As doulas ajudam a resgatar o protagonismo, o papel ativo da mulher no parto. Elas abraçam, fazem massagem, levam as gestantes para o banho, facilitam o trabalho de parto a partir de métodos não farmacológicos”, explica a coordenadora do projeto Doula Comunitária da Secretaria Municipal de Saúde, Júlia Cristina Amaral Horta. A doula foi introduzida na equipe médica em 1997, no Hospital Sofia Feldman, e em 2006 foi incorporado como política municipal de saúde.

De acordo com a coordenadora da Comissão Perinatal de BH, Sônia Lansky, a decisão de incluir essas mulheres no SUS-BH foi tomada a partir de evidências científicas. “Estudos mostram que a doula, com suas palavras de conforto, firmeza e autoestima, ajudam significativamente no parto. Elas contribuem para que o nascimento do bebê ocorra da forma mais natural possível”, afirma. Atualmente, são cerca de 80 voluntárias que atuam em seis maternidades da rede municipal de saúde. Luzia Moreira de Aguiar, de 73 anos, a vovó Lulu, é a matriarca da turma. Há 13 anos, ela cumpre seu papel às quartas-feiras no Sofia Feldman. “O trabalho aqui não é por causa de dinheiro, é para ajudar. A gente doa, mas recebe muito amor”, confessa.

Há dois anos, Maria de Fátima Ribas Ferreira, de 51, mãe de quatro meninas, é doula na Maternidade Odete Valadares, no Barro Preto, na Região Centro-Sul de BH. A experiência a fez se reencontrar de forma especial com o momento do parto. “Tive parto normal, mas naquela época nem o marido ficava com a gente na hora do nascimento do bebê. Como eles punham um pano na frente, não vi minhas filhas nascerem. A primeira vez que testemunhei um parto foi quando comecei a trabalhar como doula. Aprendi a ser mais companheira, a perceber mais o íntimo”, afirma Fátima, reconhecida pelas gestantes por causa “das mãos de seda”.

E, nesse trabalho em que a mulher cuida da mulher, Conceição Aparecida da Silva, de 69, do Hospital Odilon Behrens, no Bairro São Cristovão, na Região Noroeste, aprendeu a decifrar angústias femininas. “Fico ali pertinho das grávidas. Já percebi que, quanto mais gritam, mais problemas elas carregam. Não gritam por causa da dor do parto, mas por outras angústias. É uma satisfação a troca de amor entre as gestantes e a gente”, conta Conceição, sempre curiosa para saber o peso dos bebês. “O último tinha 3,945 quilos. Quase não saiu”, lembra. Doula da Santa Casa de Misericórdia, no Bairro Santa Efigênia, Região Leste da capital, Marta Modesto, de 52, resume: “Ser doula é doar amor, por isso ser doula é ser voluntária. Afinal, amor não tem preço.
*Fonte: Uai - Minas

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