14 de dezembro de 2009

Milagre da vida em parto feito em casa.

Luisa Torreão

Madrugada do dia 11 de novembro: passava das duas horas de quarta-feira, quando Luan veio ao mundo amparado pelos braços do próprio pai, Igor de Santana, 29 anos. De cócoras, no box do banheiro de casa, a mãe, Carla de Miranda, 23, dava um dos gritos mais fortes da vida dela.

A médica ainda estava a caminho da residência do casal, que havia optado por um parto domiciliar desde o início da gestação. Ela chegou logo depois do primeiro choro, a tempo de cortar o cordão umbilical. Pesando três quilos, Luan antecipou o trabalho de parto, previsto para durar até a manhã daquele dia. Nasceu saudável, deixando marcada, em todos, a experiência da vida.

No depoimento abaixo, quem conta a história completa é a própria mãe. O parto dela, afinal, pode não ter ocorrido nas condições ideais, com assistência médica no momento do nascimento, mas uma coisa é certa: se deu de uma das formas mais naturais possíveis. “Com ou sem médico, o bebê ia nascer. Mas, um parto rápido assim é uma exceção”, diz a obstetra de Carla, Marilena Pereira.

Há 16 anos, influenciada pelos colegas Jorge Sá e Cláudio Cunha, ela realiza partos domiciliares, sendo, hoje, a única médica a fazer isso em Salvador. Mãe de dois filhos, Marilena conta que não teve partos normais. “Foi uma experiência ruim para mim. Então, passei a me interessar em ajudar mulheres a terem um parto mais humanizado”.

Ela destaca as vantagens de um nascimento domiciliar: “Em primeiro lugar, o bebê nasce em um ambiente familiar, tem aconchego. Nos hospitais, ele é separado da mãe, quando esse vínculo das primeiras horas é fundamental. Depois, a mulher tem liberdade de se movimentar. E o risco de infecção, tomados todos os cuidados, é bem menor”.

Para a médica, qualquer mulher com uma gestação de baixo risco pode parir em casa. As contraindicações são nos casos de a mãe ter alguma doença, quando o bebê é muito grande ou está em posição anormal. “Tem que ter muito bom senso do médico para não forçar nada que não seja seguro”, ressalta a médica Marilena Pereira.

Pontos de vista

O obstetra Alexandre Dumas, professor da Escola Bahiana de Medicina, defende outro ponto de vista: ele é a favor do parto normal, porém hospitalar. “O parto domiciliar não é válido nos tempos atuais. Tem que haver humanização com segurança”, afirma.

Para o médico Áureo Augusto, fundador da comunidade naturista Lothlorien (Vale do Capão), e introdutor do sistema Leboyer de parto, no Estado, “na Holanda, é muito frequente o parto em casa, o que não é visto como hippie ou alternativo – e é o país da Europa onde há menor incidência de cesária e infecção. Na Bahia, infelizmente, o movimento mostrou um esvaziamento; porém, há cerca de três anos, noto um retorno a este interesse”.

Independentemente de domiciliar ou hospitalar, tem ganhado força o movimento pelo parto natural, a partir de campanhas e recomendações do Ministério da Saúde, desde o ano passado. O obstetra Alexandre Dumas esclarece que, embora segura, uma cesária tem sete vezes mais riscos de complicações. “Na Bahia, o índice está elevadíssimo, quando o mais indicado é o parto normal”, alerta o médico.

A professora de ioga para gestantes Anne Sobotta, 39, mãe de Jada, 3, fruto de parto domiciliar na água, é uma das defensoras do movimento pelo parto humanizado. Em parceria com a terapeuta Ana Boulhosa, ela criou a Rede de Apoio à Gestação, Parto e Pós, chamada Ventre Materno.

Formada em ioga pré-natal pelo sistema Mamaste (EUA), Anne vê o parto como um fenômeno fisiológico. “Se a natureza fez o parto via vaginal, deve haver uma razão. Não há uma abertura na barriga. Um parto natural humanizado é uma experiência ‘empoderadora’, em que a mulher se realiza”, diz a professora.

“Foi tudo na intuição”

Carla de Miranda 23 anos, mãe de Luan, de 4 dias

A barriga já vinha contraindo, nas últimas semanas. Endurecia toda, e eu sentia pressão na costela. Na segunda-feira, havia feito uma “ultrasson” e estava tudo o.k. A previsão era nascer no dia 15. Na terça-feira, a dor desceu para o pé da barriga. De manhã, eram só umas pontadinhas. Depois do almoço, começou a aumentar, parecendo uma cólica. Eu achava que ele estava começando a encaixar, não imaginava que já estava entrando em trabalho de parto.


De tarde, Igor e eu fomos fazer uma sessão de fotos. Entre uma pose e outra, eu sentia as contrações. Saímos de lá por volta das 19h e resolvemos comer um beiju. No caminho, fomos cronometrando a dor: aparecia de quatro em quatro minutos e durava 30 segundos. Liguei para a médica, que estava de plantão no hospital e pediu que eu fosse até lá para ser examinada. Voltei para casa e, quando fui ao banheiro, senti o sangue descer – era o tampão que havia saído.


Fomos ao hospital, enquanto minha irmã e o namorado terminavam de arrumar a casa. Estávamos em processo de mudança desde o dia 2, mas só naquele dia as principais coisas nossas e do bebê foram organizadas. No exame de toque, a médica disse que eu estava com 2 centímetros de dilatação e que fosse para casa descansar, que ele nasceria no outro dia. Era perto de meia-noite, quando fomos ao mercado para comprar algumas coisas que faltavam.


Eu pensava: não acredito que estou no meio do meu trabalho de parto, em pleno supermercado, a essa hora da noite. Mas, eu estava tranquila, em momento algum fiquei apreensiva. Quando cheguei em casa, tomei um banho e deitei na cama. As contrações apareciam a cada três minutos e já duravam 40 segundos. Comecei a sentir enjoo e, depois, a vomitar. Avisei à médica, e ela disse que iria sair do hospital naquele momento.


Fui ao banheiro e de lá não saí mais. Fiquei de joelho, abraçada no vaso sanitário, doía muito. Igor fez massagem na minha lombar e me levou para o chuveiro – o banho morno alivia a dor. A essa altura, a bolsa já havia rompido e a dilatação estava maior. Comecei a sentir a cabeça do bebê descendo pelo ventre. Eu gritava, já desesperada. Igor me tranquilizava o tempo todo, falava para eu respirar. Comecei a sentir tudo rasgando. Por um segundo, pensei: será que tem como segurar? Mas eu já sabia que ia nascer.


Maior grito de todos


Fiquei com medo por não ter a médica do lado. Eu estava de pé, pendurada em Igor, mas cada vez me abaixava mais. Eu pensava: se ele está me segurando, quem vai segurar o bebê? Igor dizia: calma, eu dou conta. Foi superimportante o apoio dele, me passou segurança de que ia ficar tudo bem. Foi aí que veio o maior grito de todos, eu já estava de cócoras. Nem sei quanto tempo demorou, mas gritei até ele sair. Passava das 2 horas.


Igor o amparou com as mãos. Me deu um desespero: será que ele está respirando? Mas aí eu senti o coraçãozinho pulsando. Na intuição, eu suguei a secreção do nariz e da boca dele, e cuspi duas vezes. Ele, então, deu o primeiro chorinho. Eu respirei aliviada, foi emocionante. Nessa hora, tive certeza de que ele estava bem. Nesse momento, a médica chegou. Eu respirei aliviada pela segunda vez.


Já nem lembrava da dor. Fiquei curtindo aquele bebezinho lindo. Ele estava tão em paz, acho que pela forma como nasceu, super-rápida, e por eu também ter passado o dia tranquila. Foi a coisa mais perfeita do mundo, um ambiente de serenidade, ele supersaudável, com as pessoas que eu realmente queria do meu lado. Eu não escolhi nada, nem mesmo a posição que fiquei. Foi tudo na intuição.


Depois dos pontos que levei, já estava em pé de novo, aprendendo a dar banho e a limpar o umbigo. No hospital, eu estaria deitada, esperando me trazerem o bebê. Nunca gostei daquele ambiente frio. Foi um querer muito forte de parir em casa, mesmo com a pressão da família, que era grande. Acho que não precisa de nada para parir. As contrações que sentimos já é a força necessária para o bebê vir ao mundo. A natureza é sábia!

Versão impressa do Jornal A Tarde, Bahia.

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