7 de dezembro de 2009

Cesáreas demais.

por Isaac Ribeiro

As campanhas do Governo Federal para diminuir o número de cesáreas realizadas na rede privada de saúde parecem não estar surtindo o efeito esperado. Sinal maior disso são os números divulgados este mês pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Somando os procedimentos realizados nos setores públicos e privados, a taxa de cesarianas chega a 43%, quando a recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) é de, no máximo, 15%. Os dados foram colhidos junto ao Ministério da Saúde.

Os índices são ainda maiores quando se leva em conta os planos de saúde privados, onde o percentual chega a 80%. No Sistema Único de Saúde (SUS), o número é de 26%. Os índices subiram em todas as regiões brasileiras, sendo os maiores percentuais observados no Sul e no Sudeste. O Norte foi a região com menos cesarianas.



O estudo também revelou que as mulheres com nível de instrução mais elevado realizam mais cesáreas. Mais de 70% têm 12 anos ou mais de escolaridade. Abaixo dos 20% das mulheres declararam ter estudado menos que isso.

O Rio Grande do Norte segue a tendência nacional apresentada pelo IBGE. Segundo a obstetra Maria do Carmo Lopes de Melo, do Conselho Regional de Medicina do RN, as cesáreas representam cerca de 90% dos partos realizados no setor privado; e 37% dos procedimentos no setor público.

Na Maternidade Januário Cicco, referência de partos no setor público no Rio Grande do Norte, são realizados cerca de 400 procedimentos por mês, sendo 55% cesarianas, segundo a diretora médica Maria da Guia Medeiros Garcia, ginecologista e plantonista.

Em sua avaliação, a comodidade, tanto para o médico quanto para a paciente, está entre as principais causas do avanço dos índices de cesáreas realizadas no País, inclusive aqui no Estado.

Segundo especialistas, a cesárea deve ser opção apenas em casos de gravidez de alto risco, quando o procedimento normal, o parto vaginal, não poder ser realizado. Mas, na realidade, isso não acontece. Programa-se cesarianas até mesmo para definir o signo da criança...

Comodidade é uma das causas para o aumento de cesáreas

Programar o nascimento do filho para a mesma data de aniversário do pai ou então para que nasça sob determinado signo zodiacal... Nos dias de hoje, as cesáreas oferecem caprichos e comodidades como essas aos pais. Esse tipo de parto também é conveniente para médicos com grandes jornadas de trabalho, que revezam-se em hospitais públicos, particulares e em seus próprios consultórios. Sem condições de acompanhar um trabalho de parto longo — alguns chegam a durar até mesmo 24 horas — é mais “prático” agendar o dia e a hora de nascimento do filho de suas pacientes.

A diretora médica da Maternidade Januário Cicco, Maria da Guia Medeiros Garcia, percebe as situações citadas acima em seu cotidiano de ginecologista plantonista. “O fato de o médico ter vários empregos e de não poder ficar acompanhando a mulher durante o trabalho de parto, faz com que ele se acomode e indique muito mais cesáreas do que na realidade deveria. Isso é um fato.”

O medo da dor do parto e informações negativas prévias, muitas vezes repassadas pelos familiares da grávida, fazem com que as próprias pacientes prefiram uma cesariana. “Afinal, a mulher tem o direito de escolher qual o tipo de parto quer; desde que seja informada pelo médico sobre os riscos para ela e para o bebê”, enfatiza a diretora da Maternidade Leide Morais, que realiza entre 150 e 200 partos normais por mês, em média.

Mas mesmo que o procedimento escolhido seja o parto normal, muitas vezes as coisas mudam de rumo, como comenta a ginecologista Maria da Guia. “A mulher está no decorrer do trabalho de parto e no meio acontece algum fator, o bebê entra em sofrimento, o colo do útero não dilata, a contração desaparece... Esses fatores, no meio de um trabalho para um parto normal, indicam que você faça uma cesárea.”

A Januário Cicco realiza uma média de 55% cesáreas mensais, num universo de 400 partos. Apesar de ser acima dos 15% recomendados pela OMS, Maria da Guia pondera alegando que o índice da entidade não leva em consideração as particularidades de cada estado ou cidade. “Precisamos lembrar que numa população de 800 mil habitantes de Natal a gente tem praticamente apenas dois lugares que se faz cesárea. E temos ao redor de Natal uma porção de cidades onde não tem hospital com centro cirúrgico. Então vem tudo para cá.”

Cesáreas: Mais riscos

Apesar de ser mais prática — dura cerca de 40 minutos — a cesárea oferece mais riscos para a mãe e para o bebê. Por ser uma cirurgia de médio porte, gera riscos de hemorragia e infecções, além de representar chances seis vezes maiores de a mulher morrer, em relação ao parto normal. Na cesariana são feitos sete cortes até chegar no bebê; o que implica em sete suturas também. A recuperação é mais difícil. “Imagine depois disso a paciente estar de pé para cuidar de um bebê, amamentar, trocar fralda. Já no normal, com 24 horas ela está ótima, andando pelo corredor do hospital e apta para ir para casa.”

As chances de o bebê ir para a UTI quadruplicam num parto cesariano, saltando dos 3% nos normais para 12%. A ginecologista Lenaide Rodrigues considera que a cesariana tolhe a maturação normal da criança, principalmente sob dois aspetos: as dificuldades que o bebê é obrigado a vencer para vir ao mundo, o sofrimento da ruptura, favorecem o lado psicológico; e o esforço para sair do útero, beneficia a maturação dos pulmões. “Na cesárea a criança tem mais dificuldades para respirar”, avalia.

Já a obstetra Maria do Carmo Lopes de Melo, membro do Conselho Regional de Medicina do RN, não é a favor de uma condenação total da cesárea, uma vez que adotada corretamente em pacientes cujo parto normal represente risco de morte. Ela comenta ainda a falta de preparo técnico de alguns hospitais Brasil afora. “Tem muita mulher morrendo por falta de condições de fazer cesárea. Temos que entender isso também.”

Leide Morais: Cesárea zero

Na Zona Norte de Natal, a Maternidade Leide Morais realiza entre 150 e 200 partos por mês. Desses, de 10% a 15% são casos de cesariana, segundo a diretora Edilza Pinheiro. Como o centro cirúrgico da maternidade ainda não funciona, esses partos são encaminhados para o Hospital Santa Catarina.

Mas a proposta da Leide Morais é estimular o parto normal e para isso destina 16 apartamentos. Segundo a Edilza Pinheiro, a maternidade desenvolve campanhas de conscientização sobre os riscos da cesárea, oferece assistência humanizada, inclusive com direito a acompanhante no pós-parto, seguindo o que preconiza o Ministério da Saúde.

Ela considera a informação um forte aliado para diminuir os altos índices de cesárea no País. “Tem paciente que pede para fazer, mas quando falamos dos riscos, elas recuam. O organismo da mulher foi foi feito para o parto normal.”

Outras mulheres, diz a diretora, têm bastante medo da dor do parto; ficam impressionadas por relatos ouvidos por amigas ou parentes. “Esclarecemos que não é uma dor de doença e sim fisiológica. Quando a mulher se sente segura, apoiada pela família e pela equipe que a assiste, a possibilidade de o parto ser normal é bem maior”, diz a médica, considerando a cesárea já ter se tornado um bem de consumo nos dias de hoje.

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