25 de novembro de 2009

A mulher brasileira e o parto.


Conversando com uma obstetriz esses dias eu fiquei muito surpresa com uma reflexão. Formada na França, teve a oportunidade de acompanhar diferentes mulheres de nacionalidades diferentes. Quão fascinante era observar como cada cultura perpetua uma tradição própria na forma de dar a luz. Umas se tocam e se abraçam outras ficam em silêncio total. Cada qual tem uma característica bem definida, que passa de mulher para mulher, geração em geração.

Como seria a cultura do parto da mulher brasileira se nós nunca tivéssemos entregue nosso parto as mãos dos médicos. Se as mulheres ao dar a luz fosse deixadas a vontade como seria?
Claro que temos uma colcha de retalhos das múltiplas culturas que coabitam esse imenso país. Somos de uma cultura índias, afro, católico-judaica, ainda temos tantas outras culturas que foram se chegando ao longo do tempo nas terras brasileiras. Do norte ao sul do Brasil somos de uma diversidade eloqüente. Baiana dançando Axé, carioca dançando Samba? Corro risco de parecer simplista e preconceituosa. Acho até pretensioso pensar em mulher brasileira.

Somos em parte índias? A posição de cócoras faz parte do dia-a-dia da cultura indígenas, nada de cadeiras! O parto habitualmente é de cócoras. Foi estudando o parto de algumas tribos indígenas que o médico obstetra Moysés Parcionik, trouxe o parto de cócoras como sendo o mais saudável para a região pélvica da mulher.
Somos africanas? Parte da Africa negra tem uma forma sensual de parir, fazendo toques, bater de palmas e cantos.
Ainda, somos afro-mulçumanas? Com a arte ritual e poética da maternidade através da dança do ventre. Dançam em torno da mulher que está em trabalho de parto, levando a mulher a repetir os movimentos com seu corpo, facilitando o parto, movendo-se em favor das contrações.
Toda nossa cultura Judaico-cristã? Onde a dor e o parto estão tão intrinsecamente ligados, fruto do pecado original. Do paraíso onde Eva mordeu a maçã resta o desejo e o enorme medo da dor.
Somos mulheres e mamíferas! O parto é tão fisiológico e natural quanto é social, cultural e espiritual. A pergunta que não acha resposta se repete: como dá a luz a mulher brasileira? Eu quero muito dizer que é com a alegria e sensualidade contagiantes, a perseverança e o bom humor, mas o que sei eu?

Verdade seja dita. Mal podemos vislumbrar como a mulher brasileira dá a luz!
Vivemos a cultura ocidentalizada. A cultura do outro "fazer o parto". Não podemos negar. Uma cultura dominada pelo traço do homem.
Mas o que sabe ele sobre ser mãe? Com sua precisão mental procura enquadrar o parto em uma fórmula matemática. Passageiro + passagem + dinâmica. Mas quando o corpo sai do esquadro dessa arquitetura? Basta usar o bisturi! Cesárea e pronto...

Eu tive três filhos, mas só tive a chance de dar a luz propriamente uma vez. Antes disso por duas vezes meu corpo foi seqüestrado de mim, me sentei no “colo paterno” e agradeci sua proteção, deixando a ele o ato de” fazer o parto”. Em mim ficou o registro em forma de cicatriz genital. A menina pode ser mãe através de sua assinatura. Episiotomia...

Sorte a nossa que a vida nós dá muitas chances de aprender as lições.
Para ser mãe esqueça a perfeição, esqueça o controle sobre a vida, a sua e a dos filhos. Na maternidade pouca coisa temos de preciso, não tem uma receita certa. Não é como assar o mesmo bolo várias vezes.

Talvez não exista uma única forma da mulher brasileira dar à luz, mas sim uma variedade tão grande como a miscelânea cultural que vivemos. Quando será que descobriremos isso?

1 comentários:

Denise disse...

Quando vem a descoberta que você aguarda, eu não sei. Mas espero que eu tenha também a chance de aprender e de me refazer, me redescobrindo e me reescrevendo em futuras gravidezes e partos... quem sabe?